coxia central

Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

“O Leitor”, Eros e Thanatos, a celebração da palavra e o labirinto dos tribunais

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Públicado no Diário de Coimbra de 24 de Fevereiro de 2009

Na abnegada pesquisa que costumo fazer a respeito dos filmes que comento encontro sempre coisas fantásticas.
Desta vez foi uma entrevista do próprio Stephen Daldry, realizador do filme, cruzada com um artigo do Los Angeles Times de Setembro de 2008 a respeito das lutas intestinas entre os principais investidores e mandantes da “indústria”, anteriores ao lançamento de “O Leitor” para a competição aos Óscares.
Digamos que essas histórias por detrás do cinema não são menos emocionantes que o próprio conteúdo das ficções, tendo o espectador que reunir coragem para entender a obra como algo derivado do talento criativo de certos artistas envolvidos e não apenas a resultante das catacumbas do negócio e dos seus avatares.

“O Leitor”, como tantos filmes, é baseado num livro, neste caso da autoria de Bernhard Schlink, escritor alemão que analisa factos ligados ao sentimento de culpa derivado das atrocidades cometidas no decurso da segunda guerra mundial. Investigações posteriores identificaram a figura feminina que teria dado lugar ao perfil de Anna Schmitz, protagonista do drama em causa e que seria nem mais nem menos que uma odiosa carcereira do campo de concentração de Buchenwald.
Quer o livro, quer o filme, oferecem-nos contudo uma personagem muito menos forte e determinada de que apenas ficamos a conhecer o lado da sensibilidade vulnerável e da precariedade de recursos de carácter.

Um julgamento casual muito depois do fim da guerra levam-na a depor perante um soleníssimo tribunal e é com aparente facilidade que um grupo de outras carcereiras muito mais astutas conseguem atirar com ela para uma terrível condenação de prisão perpétua.
É condenada por ter escrito de seu próprio punho uma elaborada nota de culpa, ela, que nem sabia ler nem escrever.

O filme é muito complexo, muito bem construído, foca diversos assuntos de mão cheia: o remorso por omissões, a questão do holocausto, a consciência colectiva da culpa, a tenacidade fria dos vencedores endinheirados, o ensino das leis, as trágicas contingências da Justiça e dos seus “funcionamentos”, etc.
É-me impossível por isso abordar aqui tudo o que poderia ser dito a respeito e irei ficar-me por um ponto que me pareceu magistralmente sugestivo.
Num contexto finamente erótico (qual é o filme de bilheteira mundial que poderá esquivar-se a esse primordial argumento de sucesso? …) uma mulher de rosto assustado e perdido encontra um rapaz na fina-flor da sua adolescência, o qual consegue conduzir aos encantos do leito sem nenhuma resistência. Prendado estudante de ensino médio (que na Alemanha não é campo de batalhas inglórias…) domina com finesse e voz bem timbrada textos clássicos, dramas consagrados e outras peças literárias de precioso encantamento.
O principal acessório desse convívio apaixonado organiza-se por conseguinte em torno da celebração da palavra sentimental e dramática, sentida, ouvida e sonhada.

Por razões que o enredo não clarifica totalmente a protagonista suicida-se ao fim da história. E é intelectualmente cruel e teatralmente alemão que tenha escolhido uma pilha desses livros clássicos como alçapão do seu cadafalso.

Num filme que não resolve nenhuma das suas contradições maiores mas é farto de sugestões problemáticas, este é mais um enigma com que Hollywood responsabiliza a consciência crítica do espectador. E não é pouca coisa nem elogio de somenos a cento e vinte e três minutos de cinema sem pacote de pipocas e com tampões bem postos nos ouvidos por causa do barulho infernal das projecções fílmicas dos dias de hoje.

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Sábado, 17 de Janeiro de 2009

O Cabaré da Santa do Teatrão, ou os melting pots que falam português na Casa Municipal do Teatro


A publicar dentro de dias no Diário de Coimbra

Estamos de facto num tempo de prodígios nem todos funestos, felizmente. Estive agora mesmo de visita ao blogspot.com do Teatrão e, imagine-se, tenho ao meu alcance trailers alojados no YouTube de algumas das suas realizações teatrais e acesso à asa brasileira deste enérgico condomínio artístico, o Folias de Arte, de São Paulo. O trailer, que era exclusivo do universo cinematográfico está agora ao serviço do teatro. Os meus sinceros parabéns!
O universo de significados especializados de que o parágrafo anterior é prova evidente é expressão elementar das mutações culturais que a actualidade nos oferece com toda a vastidão de consequências fracturantemente férteis que o fenómeno envolve.

O Cabaré da Santa é um notável trabalho de teatro que também trata, a seu modo, desse estado de coisas e representa para os privilegiados espectadores de teatro de Coimbra uma oportunidade a não perder de passarem um belíssimo serão na companhia de jovens que nos apresentam um espectáculo poderosamente inoculado por uma elaborada teia de ilusões que dá o braço a uma forte componente musicológica em contexto de propícias complexidades linguísticas e interculturais.
Rica de intertexto, vibrante e imprevisível, a peça desestabiliza o espectador mais composto através dum excitante e excitado percurso com variedade de facetas e abordagens culturais e artísticas que podem ser apropriadas ao gosto de cada um.
Este Cabaré poderá, desejavelmente, ser visto e apreciado mais do que uma vez. Não só porque é uma complicada teia de enredos difíceis de descodificar plenamente numa primeira abordagem, mas também porque pode ser apreciado com mimos de chá, vinho do Porto ou bom tinto (eu sou testemunha…). Na minha modesta opinião esta última componente devia estar mais assiduamente presente em certo número de eventos culturais, et pour cause…

Se esta terra ainda vai cumprir seu ideal, se o Amazonas desagua de facto no Tejo numa pororoca ou se vamos de ter de rever o nosso perfil são coisas que não me dão muito cuidado. O mundo muda com tal rapidez que vaticínios, neste como noutros casos, é melhor esperar pelo fluir deste jogo que não acaba nunca. Fundamentais serão de facto, além das inevitáveis razões da elaboração intelectual, o humor e o sexo, essas duas artes tão necessárias como difíceis no que envolvem de sensibilidade, subtileza e a sempre indispensável inteligência.
A peça evolui também nesses terrenos, não abusa nem exagera, mas sempre ventila um pouco o clima aparentemente árido da fleuma nacional. Vendo as fotografias da versão brasileira da peça publicadas na internet, ficam comprovadas nesse sentido as vantagens da miscigenação cultural entre Portugal e o Brasil e… a distância enorme que nos separa do “impávido colosso” que é o país do Carnaval.

Depois das inenarráveis negociatas de todas as épocas entre Portugal e Brasil, de que a peça também se faz eco e metáfora, depois da “invenção da mulata” – a atitude dita mais genial dos portugueses além mar – e da telenovela, cabe agora ao vulgar de todos nós descobrir e desbravar já não as veredas do sertão, mas esse privilégio sem fim que representa para nós a desconhecida genuína cultura daquele país. A sua variedade, o seu colorido, os atrevimentos que não conhecem fronteiras de raça e de preconceito, a excitante enormidade do seu espaço físico e dos intermináveis horizontes do seu espírito esperam por todos nós de braços abertos.

A peça acaba com a concepção luminar de um certo Brasil descobridor de um certo Portugal. Certo, não tem problema, meu irmão.
Quanto a mim mais me inspira, para já, um sempre novo e prodigioso oiro do Brasil com pele de todas as cores, revestido de todos os aromas da terra de que podemos e devemos, por todas as razões imagináveis, lançar mão aberta. E fazê-lo decididamente, com toda a magnífica legitimidade de usarmos a mesma língua, recompensa merecida de séculos de labutas dolorosas e viagens arriscadas.
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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

O “Ensaio sobre a Cegueira” em adaptação cinematográfica de Fernando Meirelles, a não perder

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Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2008 (Feliz Ano Novo!...)

O “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago é uma portentosa alegoria da condição humana e do mundo tal e qual se encontram, entregues a uma cegueira muito mais que simplesmente metafórica, revelando os humanos uma incapacidade quase natural de encarar problemas colectivos com alguma generosidade, altruísmo ou até o mais elementar bom senso.

O filme “Blindness” do realizador brasileiro Fernando Meirelles é uma versão cinematográfica da obra do escritor português, motivo que tem imenso interesse para todos aqueles que têm seguido o auspicioso devir do seu notável trabalho literário.

O filme é de uma qualidade fora do comum, segue de muito perto o espírito e a letra da obra em que se baseia e enfrentou de forma criativa as não poucas dificuldades que um tal enredo certamente apresenta.

A notável co-produção do Brasil, Japão e Canadá permitiu ao realizador brasileiro a adopção de soluções cenográficas muito avançadas com níveis de extraordinário realismo, grande número de figurantes e contextualização visual impecável.

A história trata da eclosão de uma inexplicável “cegueira branca” que surge como disparador duma situação limite como aquelas que as artes narrativas frequentemente utilizam para desencadear o drama. Coloca em questão a dificuldade que os homens têm de se organizar de forma pacífica e benévola face às situações de crise, que tendem a ser constantes por essa mesma razão. Demonstra também a extrema vulnerabilidade da espécie humana face a catástrofes gerais, de que a cegueira aqui é um mero exemplo simbólico.

Ao que parece, não basta ao Homem estar por natureza condenado à morte, não bastam todas as suas limitações e relativismos: fora do seu núcleo pessoal mais estreito, e logo que tenha de repartir o seu destino, acorda em si o impulso egoísta e a lamentável incompreensão.

Na refrega de todas essas contradições surgem sempre os actos de heroísmo isolado, as demonstrações de corajosa lucidez e de comovente generosidade que tão importante lugar conquistam na literatura, no teatro e nos outros testemunhos que o homem está condenado a escrever com sangue e lágrimas. Pena é que nem todas essas histórias estejam destinadas a um fim feliz.

Uma grande virtude do filme de Meirelles é a de estimular a revisitação da notável obra que lhe dá origem, efectuando o espectador interessado a ponte entre ambas, no pleno usufruto do melhor de cada uma.

É com essa a coabitação de valores positivos que as artes presenteiam os homens, numa clara demonstração de que todos ganhariam se nos comportássemos como irmãos solidários. E para que não fosse tão frequente termos de repetir, com amargura atravessada na garganta que “estamos cegos porque estamos mortos” ou que “estamos mortos porque estamos cegos”, envolvidos pela teia de um dilema sem resolução por não passarmos, muitas vezes, de “cegos que vendo, não vêem”.

O bom hábito de ficar ao fim do filme lendo a lista de todos as pessoas e organizações que colaboraram na sua produção tem o mérito de revelar que o cinema, como muitas outras formas de intervenção artística, resulta da sobreposição de esforços inteligentes entre pessoas e organismos distintos.
O genérico de “Blindness”, dada a sua extensão, é um caso superlativo e exemplo positivo de colaborações que podem contrabalançar o cepticismo que a mensagem do livro e do filme podem semear no nosso espírito.
Nem tudo está perdido e a paz construtiva é possível sempre que os homens quiserem.

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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

“A Turma” uma batalha difícil entre rebeldes intuitivos e seus únicos aliados possíveis

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Foi publicado no Diário de Coimbra de 17 de Dezembro de 2008

É pena que este filme, com argumento escrito por um professor que se interpreta a si próprio (François Bégaudeau), não seja constituído como tema intensivo de trabalho para todos aqueles que estão implicados no ensino e, ao dizê-lo, estou a pensar literalmente em toda a gente.

Principalmente os pais de filhos que frequentam o ensino secundário, aparentemente o único dono de todas as problemáticas e controvérsias, como se os outros níveis de ensino não fossem, também eles, território de complicadas contradições.

“A Turma”, de Laurent Cantet, é um pedaço de cinema duma raríssima qualidade comunicativa. Oferece-nos uma peça de ficção tão meticulosamente construída no seu todo e nas partes que a constituem, que parece um naco de vida arrancado no seu estado puro à experiência vivida algures por professores, alunos e respectivas famílias.
Quem assistir ao filme é transportado para dentro da escola duma tal forma que esquece a sua condição de espectador, tornando-se quase testemunha de factos realmente ocorridos com pessoas que, um dia destes, iriam cruzar-se connosco caso vivêssemos lá, naquele complicado subúrbio de Paris.
Não nos iludamos, contudo: a nossa realidade é cada vez mais semelhante àquela, numa sociedade cada vez mais confusa, assimétrica e problematizada.

O espaço exíguo da sala e o recreio igualmente atravancado são os cenários principais que nos são mostrados numa escola francesa onde não falta, apesar de tudo, um conjunto razoável de recursos técnicos e respeitáveis princípios de organização disciplinar.
Os momentos mais intensos do filme são os que documentam a argumentação cerrada entre professor e alunos, em pleno decurso das lições de língua francesa. O exercício da palavra, os seus mistérios, tesouros e artifícios são a reserva de subjectividades sempre candentes que revelam toda a complexidade da natureza humana.

E é aqui que se demonstra que a um professor não basta conhecer todo o conjunto de matérias que lecciona. Tem também que ser pedagogo no sentido mais lato do termo, psicólogo, sociólogo, pastor de almas solitárias, cúmplice de dramas ocultos, advogado de defesa em julgamentos de salomónica transcendência. Isto para além dos horizontes de certo desespero, do cansaço e daquilo que um outro importante filme francês de 1967 de André Cayatte designava como “Les Risques du Métier” ou seja, “Os Ossos do Ofício”.

O professor: o único aliado possível

A dignidade fechada daquela mãe africana que mal saberá, mas não ousa, falar em francês, defende o seu filho com as razões mais concretas da sua experiência particular. Expulso da escola o filho caminha atrás dela, silenciosamente confuso na revolta impotente contra coisas de que apenas intuitivamente se apercebe.
O nosso coração comprime-se porque sabemos que o professor que deixou atrás de si poderá ter sido, sem que ele o saiba, o único aliado possível que a sociedade lhe terá oferecido num combate que mal começa e que ninguém imagina como irá terminar.

A riqueza expressiva desta notável realização cinematográfica está no vastíssimo leque de questões que levanta e no modo como nos deixa a pensar no assunto.
Infelizmente, como acontece com uma larga quantidade de obras exemplares, também este filme – apesar do seu enorme êxito – acabará por ser visto essencialmente por gente que necessitaria menos de vê-lo que os seus mais legítimos destinatários.

Mais do que tudo será um erro considerá-lo um espectáculo “para professores”, dado que para estes – no que tem de mais pungentemente chocante – nada mostra para além daquilo que já abundantemente conhecem, na tempestuosa batalha que travam, dia a dia, por detrás das portas fechadas das aulas que dão aos filhos de toda a gente.


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Sábado, 8 de Novembro de 2008

“Aquele Querido Mês de Agosto”, presença de um povo e de paisagens que Portugal não conhece ou faz por esquecer

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Publicado no Diário de Coimbra de 30 de Setembro de 2008

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As imagens estavam a decorrer, as primeiras canções já tinham soado com a envolvente rítmico-erótica que lhe é típica e os desfiles de motards e procissões de fiéis em romaria não enganavam ninguém quanto ao pano de fundo da película.

No entanto o realizador, com voz envergonhada, escusava-se perante o produtor (e porque é que tudo o que vem de Lisboa há-se ser sempre assim, fatalmente severo?) dizendo que o dinheiro não tinha sido enviado para nada do que estava combinado e que as imagens tinham começado a rodar assim mesmo.

Assim mesmo, tirando partido do universo de casualidades de que é feita a esplêndida paisagem, o povo que nela habita e as ritualidades episódicas do Verão mais intenso que traz as visitas do costume envolvidas em dramas e sonhos sempre diferentes, sempre iguais.

Um conjunto mínimo de trabalhadores do cinema, largados aqui perto, mesmo na “nossa” Beira, aquela que se estende por montes e vales que apontamos com a mão aberta para os lados de onde o Sol nasce: Arganil, Góis, Coja, Serra do Açor e cercanias envolventes.

A apreciação de um trabalho feito assim não pode ser sujeito ao mesmo rigor com que se apreciam filmes vindos da tal Lisboa dos subsidiados ou de mais longe, de Hollywood e dos seus estúdios que produzem tudo. Como obra de arte tem, contudo, uma responsabilidade equivalente e tem de justificar a atenção que se lhe dá.

Não tendo ido ao cinema nestes últimos tempos, não hesitei em ir ver este isolado filme português que concorre com grandes êxitos do omnipresente cinema americano, e não me arrependi.

Toda uma sequência inicial de imagens não foge à categoria de reportagem entregue à espontânea liberdade de quem está ali para filmar o que vê à sua volta, o que resulta numa intensa viagem a zonas remotas de uma sociedade que realmente ignoramos, ou que fazemos intencionalmente por ignorar.

A marca de rudimentarismos atávicos está ali, a mal disfarçada pobreza e os casos limite de miséria mais evidente também, embrulhados no papel celofane do casticismo turístico de efeito cómico, por vezes, e trágico, não poucas.

Apesar de não ter havido dinheiro para “castings” os personagens lá vão desfilando numa variedade de perfis que não deixa de ser apetitosamente merecedor de análise.
O músico do conjunto que canta um “playback” quase pasoliniano; o administrador de condomínios que fala das suas chatices de fato e gravata à varanda da paisagem, de costas viradas para a câmara e que acredita no milagre da Senhora das Dores; a senhora idosa que toma parte numa cena espontânea e não hesita em cumprimentar a própria equipa de filmagem; os cantadores no improviso ensaiado que denunciam crimes de envenenamento e incesto por entre gargalhadas e remoques; o pobre homem que se atira todos os carnavais da ponte abaixo e as letras pimba das canções que reeditam o mesmo drama dos antigos livros de cordel.

Um filme que contém todas estas coisas numa paisagem e com pessoas a que a maioria dos portugueses finos continua a virar as costas, não pode deixar de ter interesse.

Ao fim ao cabo deve ter chegado algum dinheiro de Lisboa e o realizador lá mete as peripécias dum pretenso melodrama, com amor e ódio, sexo e incesto (o vulgar, em suma…) e quanto a mim fez mal.

O verdadeiro filme era outro, o da realidade íntima de um povo que parece fazer por esquecer aquilo que tem de tragicamente verdadeiro.

Este comentário será também publicado pelo jornal TREVIM, da Lousã, com o seguinte esclarecimento:

Quando o filme referido em título passou pelo Cine-Teatro da Lousã já o tinha visto há tempo, e a crónica que se segue já tinha sido publicada no Diário de Coimbra. A notoriedade que o mesmo granjeou a variadíssimos níveis, com prémios, menções honrosas e uma emocionada apreciação de muita gente da região e fora dela, justificará porventura a sua publicação no “Trevim”, de cujas páginas tenho estado ausente, com pena minha, devido à multiplicação de afazeres.


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Esta imagem é de gente que fez "Aquele Querido Mês de Agosto". O segundo a contar da esquerda é o realizador Miguel Gomes e ao centro o jóvem Fábio Oliveira, natural de Oliveira do Hospital, protagonista do filme


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Domingo, 30 de Março de 2008

“Duas irmãs e um rei”, versão muito aligeirada de um tempo convulsivo e violento

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foi publicado no Diário de Coimbra em Março de 2008

Já perdi a conta às versões oferecidas do reinado de Henrique VIII e da sua dramática sequência matrimonial. Filmes, livros, documentários, artigos publicados aqui e ali referem as duas esposas que foram repudiadas, as outras duas decapitadas, a que morreu por doença e outra que acabou por sobreviver.

Nalguns casos uma infinidades de factos históricos complicadíssimos apaga-se perante os ingredientes passionalmente tempestuosos desses seis casamentos reais.

Isto para não falar do inumerável cortejo de amantes, parte dos privilégios banais dos todo-poderosos, cuja conduta estava (e continua a estar…) “naturalmente” isenta das normas aplicáveis às pessoas “vulgares”.

O filme actualmente em cartaz que retoma esse tema ficará, julgo eu, como um superlativo na tendência de isolar a narrativa de toda e qualquer “intromissão” de historicidade.

O espectáculo é muito bonitinho e bem configurado, as roupagens são espampanantes e os dentes das actrizes luzidiamente brancos como nunca os houve no sec. XVI.

A história é reduzida às peripécias de uma família dirigida por cavalheiros decididamente oportunistas, no intento de usarem as graças de uma filha julgada suficientemente capitosa para seduzir um partido rico, rei de Inglaterra nem mais nem menos, embora sendo este legitimamente casado com Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos.

A coisa complica-se devido a certas ocorrências e acaba por ser uma irmã casada, virtuosa e cheia de bom coração, que acaba por ir parar à cama do rei, mau grado o esposo desconsolado de que nunca mais se ouviu falar.

A primeira irmã candidata ao real concubinato não desiste e evidencia uma tenacidade fora do comum e um não menos elaborado sentido estratégico. O rei, de cabeça perdida, não pensa noutra coisa senão em conquistar os seus favores íntimos.

Isto sem a mais leve alusão aos debates teológico-diplomáticos, à destruição de monumentos, às sublevações esmagadas, às torturas e a tantas outras violências que atribuem ao reinado de Henrique VIII mais de setenta mil condenações à morte, entre os quais a de Sir Thomas More, “A Man for All Seasons”!...

A realização é anglo-americana e, no dizer de um crítico inglês, parece destinada a adolescentes americanos que não sabem sequer em que ponto do mapa fica a Inglaterra.

A escolha das protagonistas não foi nada bem aceite na Grã-Bretanha porque nem são, nem parecem inglesas e ainda por cima falam com sotaque estrangeiro.

As melhores actuações referidas e que salvam a nota geralmente medíocre dos protagonistas, são as do pai e da mãe das irmãs Bolena.

O papel reservado ao actor que desempenha a figura do rei é completamente insignificante e o elegante actor escolhido não tem nada do volumoso corpanzil de Henrique VIII.

Ao ver este filme vêm à memória uma enorme quantidade de realizações britânicas de excelentes filmes históricos que fazem saudades e, para um filme cujas atenções estão centradas em peripécias de alcova, à parte meia dúzia de alusões “soft core”, está apesar disso muito longe de ser um filme erótico.

“O Amor nos Tempos de Cólera”, convocatória sugestiva para uma leitura inadiável

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publicado no Diário de Coimbra de 03 de Abril de 2008

Num país cujos nativos se matam impulsivamente pelas estradas na mais irracional indisciplina rodoviária e em que o prato do dia é o de uma desconjuntada professora medindo-se às bulhas com uma raparigota em ambiente vagamente idêntico a um combate de box, tenho uma imensa vergonha de vir falar aqui na falta de respeito pelo silêncio que se observa em certas salas de cinema.

Pequenas coisas assim solicitam o desconforto da intervenção cívica de qualquer nós porque a construção da disciplina não dispensa a atitude responsável dos cidadãos nem pode simplesmente instaurar-se por decreto.

Peço desculpa por ter roubado este espaço ao comentário deste filme de Mike Newell em que é tratado um dos sempre magníficos livros de Gabriel García Márquez, que não fica prejudicado na sua merecida notoriedade de escritor e nas virtudes que tem de bravíssimo cidadão do mundo.

Uma releitura rápida do livro destinada à elucidação deste comentário esclareceu um facto que não é frequente: a realização do filme segue à risca uma enorme quantidade de dados concretos que o livro nos apresenta.

Podemos não gostar daquele Florentino, podemos ficar desiludidos com aquela Fermina, cujo pai afinal não é gordo como no livro e algumas das inúmeras conquistas do protagonista têm mais perfil de modelos do que a espessura realista de verdadeiras mulheres do caribe. Não chegando este filme ao nível de excelência das melhores adaptações de obras literárias para o cinema, longe de Franco Zefirelli e longíssimo de Visconti ou Pasolini, oferece não obstante na sua opulência cenográfica e na sensualidade pretensamente equatorial, magníficos pretextos quer para a leitura do livro quer para a visitação do filme, ao qual não faltam recursos afins da literatura tais como o amparo expressivo do narrador.

Excepção feita a algumas perspectivas paisagísticas de grande angular, é todo feito em cenários especialmente fabricados para o efeito, atingindo com isso uma opulência quase barroca, cuja autenticidade relativa ao tempo e aos lugares não é possível certificar de modo algum.

Muitos dos que já leram a obra acusarão fatalmente o afastamento que não está entre livro e filme, mas entre linguagens com vocabulários e virtudes de natureza diferente, motivo que não deve perturbar o nosso amor pelas coisas, mas complementá-lo da forma mais adequada.

Ler um livro de Gabo é uma experiência insubstituível e o tempo da leitura é muito mais antigo que o tempo do cinema, tecnologia ficcional que constitui um diferentíssimo processo de construção de imaginários. Além disso o cinema que nos chega de Hollywood evoluiu para ritmos narrativos forçadamente impressionantes e é apoiado por bandas sonoras duma violência desconfortável que chegam a reduzir a percepção consciente das ideias.

A edição portuguesa que possuo de “O Amor nos Tempos de Cólera”, além duma escusada quantidade de gralhas está, porém, enriquecida com um belíssimo comentário crítico de João de Melo, a não perder.

Já agora, um pequeno desafio: acompanhar a leitura da obra pela compaginação com o seu original em castelhano, deliciosa experiência que incondicionalmente se recomenda.




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Domingo, 2 de Março de 2008

“Haverá Sangue”, ou a solidão implacável do poder

publicado no Diário de Coimbra de 2 de Março de 2008


A leitura dos roteiros de filmes em prospectos induz quase sempre em erro, apontando uma história que não é aquela que de facto vamos ver. A descoberta do que procuramos não é, neste caso, um caminho mais curto entre dois pontos e as versões fáceis nem são esclarecidas, nem compensadoras.

Há também a mazela das críticas de serviço que, na dúvida, repetem umas coisas já marteladas noutros sítios, dizendo um bocado mal para evitar correr riscos.

É por isso aconselhável procurar informação consistente a respeito das obras que frequentamos, nesta como noutras modalidades artísticas.

Num site enciclopédico de cinema é feita uma eloquente narrativa curricular de Paul Thomas Anderson, realizador de “Haverá Sangue”, designando-o como um verdadeiro cineasta, sendo os expoentes comparativos do melhor que inclui a história da 7ª arte.

Os cinéfilos antigos, que já viam cinema muito antes dele ter nascido (1970) podem, pois, continuar a ir ao cinema com a esperança renovada de encontrar, já não digo prata ou petróleo, como Daniel Plainview, mas apreensões do mundo e dos homens que dignificam a arte que pratica.

Deve ter passado em branco a muita gente o facto de o empedernido e tenaz Daniel não passar de um explorador autónomo de oiro negro, a largos anos de distância de uma outra e muito mais implacável versão dos acontecimentos, ou seja, das enormes “multinational oil corporations”.

Todos recordarão, até, o enternecedor momento inicial em que Daniel toma a seu cargo a protecção da criança órfã que virá a adoptar como filho. É a encarniçada acumulação de fortuna e de poder que o arrasta para o apodrecimento moral completo, para a misantropia e para a violência.

Já depois de ter visto o filme, foram atribuídos em Hollywood os célebres prémios cinematográficos, um dos quais tocou à interpretação de Daniel Day-Lewis, mais outro actor europeu a ser galardoado numa edição dos “óscares” em que apenas foram premiados actores não americanos.

“Haverá Sangue”, despropositadamente considerado nalgumas notícias como derrotado, é um filme de enorme qualidade e uma estatueta para o actor principal não deixa de tocar também ao realizador, dada a superior qualidade da direcção de actores. Em detrimento do filme, o ter feito tábua rasa de grande parte do conteúdo político e sindicalista da obra de Upton Sinclair que lhe dá origem (“Oil”, de 1927), apenas aflorado no caso do trabalhador que morre por acidente de trabalho e na menção de outras óbvias malfeitorias de Daniel Plainview. A seu favor a contundente caricaturização do fundamentalismo religioso, que não deixa de ser um acto difícil na América dos nossos dias, conforme bem acentua a crítica internacional.

No “shopping” onde fui ver este filme a imensa maioria das películas exibidas é de origem norte americana. A atribuição dos “Óscares” da sua academia cada vez mais se torna, pela força de tantos acontecimentos, um episódio “cultural” abrangente por excelência, com enviados especiais a Hollywood e tudo.

Os portugueses que recitavam de cor “Lá vem a nau catrineta” e sabiam os reis de Portugal de enfiada, cada vez mais raros, vão ter de se mentalizar de que as mitologias de uso corrente, agora, são outras.

Menos mal se dos USA nos forem chegando filmes de qualidade como este. O que não é sempre o caso, infelizmente.




Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão

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Publicado no Diário de Coimbra no dia 15 Fevº 2008

NOTA: contrariamente ao habitual, e por qualquer acidente de utilização do ficheiro remetido ao DC por e.mail, o texto publicado continha alguns defeitos, nomeadamente a não inserção do último período, abaixo assinalado em bold.

No interesse imediato de quem vende filmes pode ser perfeitamente justificado classificar este “Sedução, Conspiração” como “thriller” ou “melodrama erótico de espionagem”.
O espectador avisado não pode, porém, abandonar-se a tais vulgarizações, devendo separar o trigo raro das realizações consistentes, do joio abundante das contrafacções.
Dizendo a abrir, com clareza, que se trata de um filme para maiores de dezoito anos, convém não perder de ideia aquilo que sempre repito: vulgares, moralmente inóspitas e até lamentavelmente violentas são certas fitas compradas ao quilo pelas televisões e assiduamente emitidas, em sinal aberto, com enormes intervalos de enfadonha publicidade.

Os países que perdem a memória não perdem apenas o passado, perdem também o futuro

“Sedução, Conspiração” é realizado por um cidadão chinês de Taywan, que assume neste filme a mais legítima memória histórica e política que interessa a todos os povos da Ásia, evocando um período de inenarrável e humilhante decadência da China, no contexto de um épico esforço de recuperação da sua dignidade e independência.
Ang Lee oferece-nos uma obra recheada de percepções de forte densidade, humanamente rica e ideologicamente muito estimulante. A escolha dos locais de filmagem, as composições cénicas e a riqueza dos detalhes de produção acrescentam-lhe, aliás, uma inquestionável credibilidade narrativa.
Realizadores e filmes como este fariam (e fazem) bastante falta a países aparentemente alheados do seu devir histórico, esquecendo aqui, falseando acolá.
Quanto ao panorama da crítica de cinema, mesmo a que desfruta da melhor visibilidade, é geralmente muito sumária e quase omissa no que toca a uma fundamentada contextualização político-histórica.

O teatro e o cinema… no cinema

São de salientar as referências ao teatro e ao cinema como linguagens universais de comunicação e sentimento. A peça de teatro como fórmula deliberada de intervenção e as citações de filmes de época com a protagonista em lágrimas perante uma cena com Ingrid Bergman a preto e branco são disso uma clara demonstração.
As cenas de sexo explícito transcendem em muito o seu teor exclusivamente erótico e reflectem uma parte importante das transformações de carácter que vão sofrendo os personagens ao longo do seu drama, face visível do íntimo segredo que os prende à sua humana contingência. Sem elas seria impossível compreender o enredo do filme e a trama de atitudes surpreendentes, quer da parte de Wong, aliás Wei Tang, quer da parte do senhor Yee, aliás Tony Leung − o Clark Gable de Hong Kong.
Um primeiro acto violento, próximo da tortura, desenvolve-se num complexo aprofundamento passional que se aproxima da sublimação no momento em que Wong canta para Yee, fantasiando-se como geisha, e culmina no acto incontido de traição que conduzirá à sua morte e de todos o grupo de revolucionários, para salvar o execrável agente da paixão.
A feição erótica do entrecho, que em língua portuguesa apenas li em análises muito sucintas, daria para alimentar uma outra história – uma boa história, aliás – em que a complexidade afectiva e a violência do desejo pudessem ser parte central.


O implacável poder elimina sempre as meninas Wong e protege cautelosamente os Senhores Yee

“Sedução, conspiração” é, em variados sentidos, um filme plural, muito rico de forma e de conteúdo. Termina, contrariamente ao que é hábito em muitas facilitadas visões da realidade, com penetrante sentido de responsabilidade estético-narrativa: os mais generosos militantes, aqueles que mergulharam na história sem objectivos de poder ou privilégio, tendo como única arma de combate o seu idealismo, são todos implacavelmente eliminados pelas máquinas políticas, à beira dum fosso de negrume e eternidade.
A forma como o realizador nos poupa ao momento exacto da execução sumária do generoso grupo de colegas de escola e antigos activistas de teatro é de uma preciosidade simbólica muito rara, e liberta o seu trabalho de toda e qualquer suspeição melodramática.
Se o sacrifício anónimo de tão imenso número de militantes reais como os da encantadora protagonista atingiu ou não os seus melhores desígnios, não cabe aqui avaliar.
Contudo, embora Ang Lee não deixe de evocar a amarga recordação de um tempo no qual brigadas de funcionários recolhiam em carroças os cadáveres dos esfomeados pelas ruas de Xangai, não tenhamos dúvidas que continua a haver lugar – na China como em tantos outros países – para algumas meninas Wong e, de certeza, para um bom numero de Senhores Yee.





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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

“I am Legend”, mais um filme com título mal aplicado e pior traduzido, que diferença faz?...

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Publicado no Diário de Coimbra no dia 08 de Fevereiro de 2008

O poeta, crítico, ensaísta e homem de cinema Dan Schneider oferece-nos uma detalhada apreciação do livro de Richard Matheson, de 1954, cujo título é o mesmo do filme de Francis Lawrence actualmente a ser exibido em Coimbra.
Refere, entre muitas outras coisas, as duas obras cinematográficas de 1964 e de 1971 (“The Last Man on Earth” e “The Omega Man”) que também nele se basearam, sendo muito clara a sua preferência pela primeira, com interpretação do grande actor que foi Vincent Price.
Do livro diz-nos tratar-se de uma das melhores obras escritas a respeito da solidão humana, ultrapassando Robinson Crusoe de Daniel DeFoe, sendo igualmente uma desmontagem do mito dos vampiros em termos de modernidade.
Não hesita em colocá-lo a par de “Moby-Dick” e das “Aventuras de Huckleberry Finn”. Ultrapassa, a seu ver, as contingências de uma categorização na área da ficção científica ou da novela pós-apocalíptica, constituindo-se como alegoria subtil ao MacCarthismo e ao rígido conformismo dos anos 50, factos percursores das esterilizações político-culturais e ideológicas da contemporaneidade.
Conhecidos os rigores e a intolerância da América de Joseph MacCarthy e J. Edgar Hoover poderemos facilmente imaginar a coragem da obra de Matheson que, apesar de tudo, conseguiu impor-se como notabilíssimo autor de criações para o cinema, sendo um dos principais ficcionistas ao serviço da série de culto “Twilight Zone”.

Ignorar as evidências e aceitar qualquer patranha, eis outra forma de ser “feliz”

É muito difícil esclarecer neste breve espaço todo o conjunto de tropelias que Hollywood (um “bosque sagrado” como há poucos…) efectua sobre a obra original de Richard Matheson, bastando assinalar que a vira completamente de cabeça para baixo.
Nem o princípio, nem o meio, nem o fim, nem o cenário, nem a índole do protagonista e, “last but not the least”, nem o carácter dos implacáveis vagantes nocturnos têm nada a ver com os vampiros da sua obra.
Quanto às incongruências ou exageros ficcionais, ninguém parece ralar-se com isso. Numa Nova York apocalíptica e desértica há vários anos, Robert Neville continua abastecido de energia eléctrica, num apartamento de Washington Square onde continua a dispor de abundante água corrente até para dar banho a Samantha, sua cadela e companhia inseparável.
Não só no cinema, mas também na vida real, as pessoas continuam a acreditar piamente em tudo aquilo que querem, sem olhar às realidades mais objectivas, a toda a lógica evidente e até às suas mais elementares necessidades.
Será essa a receita para uma infalível e antidepressiva felicidade?...
No cinema não, quanto mais na vida.

Para salvar a humanidade, um tenente-coronel da US Army, pois claro

Como frequentemente acontece, é no desempenho dos artistas de renome (como Will Smith no papel de Robert Neville, neste caso) e dos especialistas em efeitos especiais que se baseia a enorme probabilidade de sucesso da grande “máquina dos sonhos”, já para não falar no imenso trabalho desenvolvido e nos milhões de dólares de destemido investimento.
Um dos segredos tem nome e chama-se CGI: “Computer Generated Imagery”, ou “grafismos computorizados a 3 dimensões” ou efeitos especiais por via digital, tanto faz. Da abstracção digital surge um leão, um tigre, um fantasma que mete medo como os diabos, ou trinta, ou trezentos, rugindo esqualidamente e trepando por arranha céus acima para matar o herói, entrincheirado e disposto a salvar a humanidade, já completamente aniquilada pela engenharia genética, entretanto muito na berra!...
A indústria do cinema vai alimentando bichas de frequentadores que, para além do mau hábito estereotipado das pipocas e da beberragem castanha, também de lá trazem reservas de curiosa fantasia, sonhos e combustível de ideias para consumo imediato e posterior.
Essa energia expande-se em todas as direcções, todos e cada dia que passa.

Se já estamos a caminho, saberemos para onde vamos?

Elevado número de crianças consome infinidade de imaginários de que muitas pessoas da minha geração não fazem a mínima ideia, por distracção ou desinteresse perante fenómenos que resolvem ignorar.
Uns evoluem não se sabe para onde, afundando-se os outros em saudosismos sem salvação possível.
Na fila à minha frente, sentavam-se duas crianças certamente com menos de treze anos de idade (barreira que nos EUA é acentuadamente recomendada aos pais e responsáveis para visionamento deste filme), que saíram da crispação do “thriller”, placidamente, para a animação consumista do colorido Mega Centro.
Que sementeira de emoções, que reserva de sonhos ou que recurso de energias da mente terá produzido naquelas cabeças de meninos um tão intenso desfilar de impressões?
Quem poderá adivinhar, se ninguém parece desejar saber?
Que normalidade serena será esta?
Para onde é o caminho, se parecemos saber todos tão bem para onde vamos?...


“Call Girl” de António-Pedro Vasconcelos, num cinema perto de si…

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Publicado no Diário de Coimbra de 22 de Janeiro de 2008


Envergonhado por uma ausência pela qual alguns devotados leitores me vão zurzindo a tranquila consciência de quem faz, não o que quer, mas tudo aquilo que pode, aqui estou desta vez para vos falar de cinema.

Para um cinéfilo que não vai a todas e já não colecciona, como antigamente, os bilhetes e programas dos filmes que vai ver, as mais gratas referências que me ocorrem a respeito da obra de António-Pedro Vasconcelos são os seus magníficos “O lugar do morto” e “Jaime”.
Realizador com obra feita, embora em descontinuidade acentuada, queixa-se do mesmo que muitos se queixam: de não ter condições para prosseguir uma obra assídua e centrada naquilo que de melhor sabe fazer, ou seja: cinema de qualidade.
O autor é também uma voz clara na denúncia de muitas artimanhas com que alguns habilidosos vão conseguindo “orientar-se” na confusa selva dos favores institucionais, o que não lhe deve facilitar a vida.

“Call Girl”, título equívoco para o sucesso

A expressão inglesa em si, que o Cambridge Dictionary me diz ser “a female prostitute who arranges her meetings with men over the telephone”, é traduzida pelos brasileiros com a frescura linguística que lhe é reconhecida, por “garota de programa”.
Em português europeu (descendente da clássica latinidade), a tradução de “call girl” é… “call girl”.
Dá mais pica, tem outro sabor, caraças!
O filme foi apresentado com certo sensacionalismo que me colocou de pé atrás. Se não fosse a persistência que alimento de ver filmes em português (oxalá esse princípio fosse moda), só o esquema temático que envolveu a sua divulgação me daria razões para ignorá-lo. Recordando contudo a riquíssima humanidade de “Jaime”, lá fui, esperançado como sempre, para um pedaço de tarde passado na “sala escura”.
E não me arrependo nada.

A televisão portuguesa mostra obras medíocres porque quer, e ponto final

Pela minha parte, não tenho complexos nenhuns em afirmar que “Call Girl” é um belíssimo filme, de narrativa fluente, luzes e sonoridades expressivas, ritmos cuidados por um profissionalismo amadurecido e actualizado.
Algumas vozes queixam-se da abundância das “gros mots”, copiosamente usadas pelos personagens e da exibição sem grandes peias da esplendorosa sensualidade de Soraia.
Os críticos que tais fantasmas agitam devem usar umas asinhas brancas e andar muito distraídos.
Qualquer adolescente novinha das escolas usa e abusa de tais expressões, na fruição plena duma novidade destravada pela contemporaneidade. Julgo até que, para elas, tais palavras já nem significam o que significaram, nem representam o que representaram para outras gerações. Alguns quilómetros mais a Norte, pertenceram sempre ao léxico mais vulgar e até castiçamente familiar.
Quanto ao erotismo, um dos condimentos evidentes em “Call Girl”, não vi nada que ultrapasse os atrevimentos desatados pela própria televisão e muito longe do que a Internet divulga escancaradamente.
Tudo o que este filme nos oferece está dentro dum excelente sentido de medida ou seja, nada é mostrado que vá para além do que procura revelar.
Aliás, surpreende o facto de ser apoiado por uma cadeia televisiva que produz obras de ficção sem os mínimos princípios de qualidade que abundam nesta realização de António-Pedro de Vasconcelos. Porque não coloca tal cadeia ao seu serviço uma tal estética ficcional, a mesma qualidade dos textos, a direcção de actores e um tão esclarecido sentido de mensagem?

Polícias assim, não sei se os há: mas apetece acreditar que existem!...

“Call Girl”, e só a repetição do título me causa um certo calafrio é, aliás, um magnífico exemplo de como a ficção pode transportar as contingências da realidade vivida e percebida, sem ser por impulsos traumatizantes ou pela receita da violência como aliciante mediático.
Uma palavra para o excelente desempenho dos actores, que demonstram um leque de recursos cheios de sentido criativo, tornando-se irresistível recordar a “criação” preciosa dum ministro “com sotaque”, como aqueles notáveis da toleima que andam a tentar inventar uma forma só sua de falar português, com “letgas tgocadas umas peuas outgas” para convencerem que são chiques.
O filme procura demonstrar, como tantas obras do estilo policial, que há polícias humanizados, idealistas e de elevado teor de honestidade, com os quais o “poder-poder” se não dá bem.
A última cena do filme, com dois homens cansados de guerra, saindo pela doce manhã para mais uma tarefa rude de perseguição ao crime, é empolgante e poética.
Não sei se há muita gente assim, pronta a lutar com coragem pela verdade e pela rectidão.
Mas conforta a alma do espectador pensar que sim.
Se esse instante for repartido por todos aqueles que foram ver o filme, daqui mando o meu abraço a António-Pedro, fazendo votos que continue a fazer filmes com polícias voluntariosos e apaixonados, mulheres bonitas que têm o seu ponto fraco e autarcas quase impossíveis, daqueles que acreditam que não se devem abater sobreiros!...

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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

O Cinema morreu, Viva o Cinema!...

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Publicado na REVISTA DE INFORMAÇÃO do Sindicato dos Bancários do Centro de Julho/Agosto de 2007

Numa Sexta-feira quente de Agosto a rtp2 presenteia a multidão dos cinéfilos com dois filmes da autoria de dois grandes realizadores recentemente falecidos.

Os filmes estavam naturalmente disponíveis e, com pretexto na morte dos respeitáveis criadores, foram entregues aos (escassos?) espectadores a braços com a casualidade triste de não estarem algures, sentados em esplanadas defronte de bebidas loiras ou coloridas, mirando bronzes artificiais envolvidos por tecidos vaporosos.

A minha inclinação de criticar a política cultural das televisões portuguesas em geral e a sua política de difusão cinematográfica em particular − que são duas coisas que praticamente não existem − teve nestes últimos dias duas razões felizes para reservar silêncio: este serão de Sexta-feira e, há dias, a passagem dum extraordinário filme de 1992, de Michael Mann, tratando magnificamente uma das obras predilectas da minha estante: “The Last of the Mohicans” de James Fenimore Cooper.

Entre “Sarabande” de Ingmar Bergman e “Blow-up” de Michelangelo Antonioni (e são estes os dois filmes em referência) existe pelo menos o parentesco respeitável de serem obras de grande qualidade de dois realizadores notáveis, merecendo cada um dos filmes uma contemplação muito atenta e aprofundada, com ligações essenciais a toda a obra restante dos dois cineastas.

Pela economia a que me força o pouco espaço disponível, refiro-me principalmente ao primeiro, devido à importância que ocupou o seu autor na geração de apreciadores de cinema de que faço parte.

Quando comecei a ver filmes de Ingmar Bergman a Suécia era um país longínquo, como hoje e sempre será, notabilizado pela ideia de progresso social, avanço cultural e liberdade.

Para além das mensagens de ordem estética, da profundidade filosófica e até da densidade dramática que os seus filmes continham, havia neles uma atmosfera austera de reflexões enigmáticas, em branco e negro com meios tons riquíssimos, sob a luz misteriosa e ténue da Escandinávia.

O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, O Rosto, A Fonte da Virgem, Mónica e o Desejo, o Olho do Diabo, entre outros, foram filmes comentadíssimos e, melhor ou pior compreendidos, numa sociedade pouco preparada para a generosidade da circulação das ideias, lá foram construindo um universo de referências a que o decurso dos anos viria a acrescentar uma enorme lista da melhor qualidade: Lágrimas e Suspiros, Sonata de Outono, Fanny e Alexandre e Cenas da Vida Conjugal, para o qual remete a temática desta última obra, Sarabande, protagonizada, aliás, pelos mesmos actores.

Nos últimos filmes da já afirmada maturidade de Ingmar manifesta-se largamente a tendência reflexiva de um cinema de estrutura quase teatral, de grande austeridade, com poucas personagens, rico de longos monólogos ou diálogos de conteúdo muito denso, cuja aparente serenidade de vozes contidas não oculta a acentuada complexidade de conflitos e dramas íntimos.

A transitoriedade da vida, o absurdo da existência, a impossibilidade do amor, as disputas pessoais, a fractura entre as gerações, o dramatismo da morte e a insanável ausência dos que partiram são abordados sempre com grande sobriedade de meios a que o talento do cineasta acrescenta, no entanto, uma solidez estética inultrapassável.

A lentidão narrativa de Bergman, a completa indiferença por entrechos rebuscados sem concessões à vulgaridade fazem-nos pensar numa outra cinematografia notável a que devemos alguns dos melhores momentos do cinema português de todos os tempos: a de Manuel de Oliveira.

Não será necessário, como é evidente, tentar descortinar as semelhanças e diferenças entre obras igualmente notáveis de artistas muito distintos.

Ideal seria, contudo, que a morte recente de grandes figuras da cinematografia europeia pudesse marcar, não o ocaso de uma forma riquíssima de expressão que já garantiu uma absoluta autonomia entre as artes, mas sim o reforço da sua capacidade de intervenção como instrumento de cultura e edificação da sensibilidade de todos os homens de hoje e de amanhã.

Oxalá uma crescente disponibilidade do DVD e uma melhoria dos meios de fruição do cinema como obra de arte, possam vir a ser motivo de aprofundamento e expansão de obras não exclusivamente baseadas na violência, em frenéticos efeitos especiais e na vulgaridade de processos estilísticos.

Aqui, como noutras áreas de interesse por valores positivos, a atitude dos cidadãos tem uma virtude fundamental: ver obras de qualidade, fazer o seu comentário inteligente e exercitar a sua divulgação é do interesse não apenas dos cinéfilos e dos espectadores com memória do cinema, é uma ocupação que dá prazer e aproveita a toda a sociedade.



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O trabalho dos mais conhecidos e prestigiados realizadores de cinema depende sempre de grupos de trabalho de grande qualidade. Sven Nyqvist, director fotográfico, aqui à direita de Bergman, é um caso especialíssimo do qual dependeram grandes sucessos do mesmo. Granjeou notoriedade do mais alto nível, sendo-lhe atribuídos dois Óscares na sua especialidade.


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Terça-feira, 20 de Junho de 2006

O Mistério da Estrada de Sintra, de Jorge Paixão da Costa

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Publicado na REVISTA DE INFORMAÇÃO do Sindicato dos Bancários do Centro de Maio/Junho de 2007


Devia constituir obrigação cívica ir ver filmes portugueses, tal como deveria dar desconto para o IRS ver teatro em Portugal, ler obras escritas por autores portugueses, e um longo cortejo de “etc.” para toda a cultura nossa, de agora e de antanho, de todos os géneros e de qualquer autoria.


Inaugurar esta coluna destinada a trazer assuntos da cultura de todos os dias para as páginas da revista do meu sindicato se não é uma atitude que prime pela novidade (sou sócio do SBC, pelas minhas contas, há mais de trinta e seis anos…) é para mim uma oportunidade deveras emocionante.

Aliás, fica para uma próxima ocasião descrever o que foi a tentativa, recheada de episódios, de tentar colocar de pé um grupo de animação cultural no seio do nosso sindicato, no princípio dos anos 70, com circulares em papel de cor, ilustrações e projectos mirabolantes que fariam corar certas vereações de cultura nossas conhecidas!...

Com propósitos muito mais modestos que nessa altura e assumindo o perfil baixo de alguém que deseja apenas conversar com os colegas, fica assim dado o tiro de partida para estas linhas que prometem falar de tudo o que seu autor julgue ter interesse, seja nas artes, nas letras ou nos espectáculos.

O cinema visto no Teatro Dona Maria Pia, uma coisa de outro mundo

Os meus hábitos de apreciador de cinema tiveram o seu início num momento mágico para aquela modalidade de produção artística, altura em que ainda não havia televisão, numa pequena cidade de província onde nem havia cinema todos os dias, nem eu podia frequentá-lo as vezes que me apetecia.

A sala que melhor conheci era uma preciosidade raríssima, uma das primeiras salas de concertos com palco à italiana construídas em Portugal:

o Teatro Dona Maria Pia em Leiria, cuja destruição ímpia foi apenas mais um desses crimes que entre nós vulgarmente são cometidos sem que o chão se abra debaixo dos pés de quem o pisa, ou o céu vomite raios e coriscos de imprecação celeste.

As salas de cinema da actualidade estão para mim, por esse facto, feridas de uma debilidade ambiental clamorosa, que retiram à magia da “sala escura” todo o seu mistério essencial, carente de ritos e de requintes que o tempo não apaga na memória das afinidades electivas, impossíveis de compensar com pacotes de pipocas e bebidas castanho escuro (hábitos dispersivos da atenção cinematográfica, além de lamentavelmente antidietéticos!).

Eça de Queiroz, aluno da Universidade de Coimbra

Tudo isto a propósito do filme de Jorge Paixão da Costa “O mistério da Estrada de Sintra”, recentemente estreado, e que os colegas na nossa área sindical poderão ver – pelo menos – em Coimbra, Guarda Leiria e Viseu.

No curto espaço de que disponho é impossível dizer seja o que for de consistente a respeito deste espectáculo, e muito menos acerca das figuras e situações literárias que lhe deram origem.

Fica passado o testemunho entretanto de que é sempre uma belíssima oportunidade a não perder ir ver filmes portugueses.

O cinema nacional, na sua variada riqueza e apetrechamento tecnico-cultural encontra-se recheado de valores do mais alto gabarito e merece a atenção (ia a dizer o patrocínio) de todos nós.

Devia, aliás, constituir obrigação cívica ir ver filmes portugueses, tal como deveria dar desconto para o IRS ver teatro em Portugal, ler obras escritas por autores portugueses, e um longo cortejo de “etc.” para toda a cultura nossa, de agora e de antanho, de todos os géneros e de qualquer autoria.

Num país cujos Sábados, Domingos e serões televisivos se encontram juncados de fitas americanas da mais desavergonhada violência (ontem ao deitar lá foi mais outra, com a “sugestiva” bolinha ao canto), ir ver um filme português é uma atitude de higiene cultural magnífica, que abre para o debate de questões que a todos interessam e a todos dizem respeito.

Recomendo pois este interessante espectáculo de cinema, bem como a leitura da célebre obra de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão que lhe serve de tema (sublinhando-se aqui a raridade preciosa de uma tal parceria de criatividades, não isenta de acidentes e paixões, como nos revela o próprio filme!...).

Se sobrar coragem sugiro igualmente um mergulho decidido na temática da notável “Questão Coimbrã”, que rompeu nesta cidade em 1866, ano em que aqui se formou em Direito um rapaz de 21 anos chamado Eça de Queiroz.

Ninguém vai ficar indiferente à substância desses debates e obras literárias, de que “O Conde de Abranhos”, do mesmo Eça, representa um superlativo da mais intensa frescura de actualidade!...


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Segunda-feira, 19 de Junho de 2006

Um regresso e uma justificação


Sem que tenha esmorecido o interesse que me merece o teatro, julgo agora ser a altura de regressar à crítica de cinema, modalidade de intervenção cultural que já pratiquei no passado.

Para dar seguimento aos meus bons hábitos de espectador, irei continuar a frequentar a "coxia central" de que sou assinante perpétuo, dando conta disso a todos os meus simpáticos leitores.
Ou não fosse genuíno apreciador dessa especialíssima "7ª arte", à qual assisto há um número de anos tão dilatado, que me inibo aqui de dizer quantos...


. Os textos sobre teatro que aqui se apresentam são escritos na qualidade de espectador interessado que se dá conta da escassez de opinião pública a respeito do mesmo.

Ao procurar acrescentar a minha subjectividade aos espectáculos a que assisto, sinto que estou a dar a resposta de estímulo e de sensibilidade que essa forma de arte merece e necessita.
Não vale de nada dizer-se que há um imenso interesse pelo teatro, que as pessoas profundamente o amam e que as instituições tão firmes o acalentam, se sobre cada espectáculo nem um breve comentário se tece nas páginas de um jornal.

Assim que me dei conta do interesse da blogosfera como meio de comunicar com as pessoas fiquei interessadíssimo e demorei algum tempo em adquirir os conhecimentos básicos para chegar onde me encontro.
O trabalho que apresento está longe de me dar satisfação, sendo muito frequente cruzar-me com blogs cheios de tecnologia visual que me põem verde de inveja. Como eu gostava de saber fazer aquilo!...

A ilustração deste “post” reproduz um trabalho de minha autoria, e é uma pequena “gratificação visual” para aqueles que tiverem a gentileza de aqui entrar. Se desejar ampliar a imagem, basta clicar sobre a mesma.

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Quinta-feira, 2 de Março de 2006

Eureka, uma visita para crianças ao mundo da Física, com música e fantasia

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A peça comentada, que não tinha um folheto de luxo com ilustração própria, permite-me mostrar em sua substituição esta belíssima obra de Almada Negreiros, que vi exposta na Fundação Calouste Gulbenkian em 1984. É um óleo s/ tela (80 x 65) "Retrato Clássico de Arlequim" de 1941.

Publicado no Diário de Coimbra de 3 de Março de 2006

Largas dezenas de actuações e quase três mil espectadores depois, inicia agora um périplo diversificado a peça “Eureka, uma viagem ao mundo da Física” da Associação Cultural “Encerrado para Obras”.
Esteve no Museu da Física, fez parte das comemorações do Ano Internacional daquele ramo da Ciência e teve consultores universitários que para a mesma forneceram sugestões e deram pareceres válidos.
Por ter um enredo tecido sem palavras e por conseguir manter atenta a sua assistência, geralmente infantil, durante praticamente uma hora, o comentário a seu respeito – que não é fácil – terá que ser, pelo menos, diferente.
Se a dificuldade do trabalho é óbvia pela eternidade que quase sessenta minutos representam para a solidão do único artista em palco, imagine o leitor a dedicação, o generoso interesse e a variedade de recursos expressivos que foi preciso pôr em marcha para fazer surgir do nada uma tal peça, ainda por cima sujeita a um tema tão difícil como o de revelar e tornar atraentes leis e fenómenos do mundo da Física.
David Cruz e Estela Lopes, com apoio de larga equipa de outros sonhadores, lançaram mãos à obra de investigar os mil e um processos simples e sugestivos que poderiam desaguar nesse mar de fronteiras desconhecidas que é o da imaginação liberta e palpitante de uma criança, tão aberto e, contudo, tão vário e tão difícil de navegar com rumo certo.
Contrariamente à generalidade das peças de teatro que têm um texto, uma história e respectivas personagens como esqueleto do que vai ser vivido pelo espectador, neste caso foi preciso descobrir tudo. Esse tudo não foi apenas conceber e construir todos os apetrechos, mecanismos e engenhocas que, meio utensílios de saltimbanco, meio engenharia de efeitos especiais, foram dando corpo ao universo de artifícios que preenchem o espectáculo.
O recinto onde decorre o mesmo é tornado arena de circo, terreiro de acrobacias, plataforma de ilusionista, rampa de lançamento de luzes e objectos voadores, palco musical ou várias outras coisas de que me não lembro já!...
David faz isso com vocação de artista criador, com veia musical e com leveza de acrobata (que chega a correr alguns perigos...) mas, sobretudo, com o sentido de invenção que só uma enorme ternura e uma larga memória do universo dos espectáculos singelos podem justificar.

Uma passagem breve para o paraíso da infância

Há outra coisa muito importante na delicada atitude romântica que anima toda a sua actuação: numa época saturada de espectacularidades vividas em recintos enormes e recheados de artifício, David viaja para o mundo misterioso da Física levando os seus espectadores, por assim dizer, pela mão, tratando com eles à distância de um gesto, de um passe de bola ou de uma carícia.
Os adolescentes resistem mais ao convite que uma tal mensagem comporta. A sua mente começa a estar na dependência do choque de sofisticações que só a “high-tech” prodigaliza na esquizofrénica abundância dos “megabytes” ou no ribombar ensurdecedor dos “megawatts”.
É por isso que é importante que este espectáculo seja visto por muitas crianças, aquelas cuja mente está ainda a tempo de poder assimilar esse gesto simples e ingénuo que pode ter estado ao longo de séculos ao serviço da curiosa surpresa que anima a alma ao mesmo tempo que a comove.
Um sorriso simples e franco que não necessita para se enternecer que o sangue corra, ou um olhar de inusitado espanto que se desata sem ter de ouvir com medo, ao longe, o ribombar dos canhões.
Aos adultos que tenham a oportunidade feliz de assistir à peça, sugiro por todas as razões que o façam, não só pelas qualidades acima enunciadas, mas também por ser um reencontro, uma viagem no tempo, uma passagem breve para o paraíso da infância
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

“Orgia” de Pier Paolo Pasolini, pelos Artistas Unidos, no TAGV

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Publicado no Diário de Coimbra de 23 de Fevereiro de 2006

Ir ver uma peça como “Orgia” de Pier Paolo Pasolini sem fazer um certo trabalho de contextualização ou sem dispor de referências sobre o critério estético e cultural que correspondeu à sua origem, pode largar o espectador no labirinto de uma perplexidade indesejável.
Menos mal que desta vez ainda tivemos a oportunidade de adquirir, a um preço módico, por adequada iniciativa dos Artistas Unidos e dos Livros Cotovia, uma tradução de dois originais de Pier Paolo, entre os quais o desta peça.
Quem tenha uma memória alongada da obra do autor, cujo “Evangelho segundo S. Mateus” de 1964 produziu no Portugal desses tempos uma impressão avassaladora, e se disponha a compulsar alguns textos de sua própria autoria sobre teatro, o suicídio, a “diferença” e muitas outras coisas, ficará mais à vontade perante esta anunciada “crónica das pobres emoções sadomasoquistas de dois cônjuges pequeno-burgueses”.
Como fazê-lo? Indo à Internet, é claro, bastando consultar a sempre enorme quantidade de “sítios”, entre os quais um que me embarcou directo
num depoimento do próprio artista sobre “Orgia” e duma breve mas explícita entrevista dada na altura em que a peça se estreou em Torino, Setembro de 1968.
O endereço desse documento é compridíssimo e a sua publicação sob forma escrita seria improdutiva. Para os interessados, como é hábito, publico esta crónica no blogue acima indicado, onde ficará uma ligação directa para esse precioso documento, com o qual deixo os meus leitores, o que me poupa a exercícios de inútil erudição.
Quanto à peça foi uma magnífica oportunidade para conhecer o soberbo texto de PPP, à qual se fez ausente a plateia de interessados espectadores do TAGV, frequentemente numerosa quando se trata de peças “estreladas” por nomes apetecíveis do universo mediático.
Muita coisa poderia dizer-se sobre ela e sobre os inesgotáveis temas de que trata.
Ainda na qualidade de espectador fiel dos filmes de Pasolini, senti-me um pouco “arrefecido” pela carência de actores cuja figura, cuja voz e cujo estar fosse compatível com a habitual “paisagem humana” das suas obras de cineasta. Ninguém aqui deseja comparar evidentemente o elenco de uma peça feita na Lisboa dos nossos dias, e o de um filme original do autor, frequentemente confiado a actores arrancados por ele mesmo à vida vivida naquela margem mais intensa e radical em que ele próprio se movia.

“E agora divirtam-se”, disse o enforcado

É com esta frase, de uma ironia desapiedada, lançada pelo protagonista de Orgia aos espectadores – “seus inimigos” – que termina o prólogo desta peça, escrita por um autor que considerava o monólogo como o mais teatral dos acontecimentos, critério em que assentava a sua noção de “teatro de palavras”.
E já agora, venha ou não a propósito, sobre sexo:
Numa sociedade como a nossa, onde tão assiduamente se papagueia a legitimidade do “diálogo abertíssimo” e da “informação a 360 graus” sobre as questões da sexualidade, nem por isso a peça declamada no TAGV pôde ter concitado a curiosidade sobre este tema raro numa sociedade secularmente “letrada” e “culta” na qual, ou eu me engano muito, ou muita gente anda por aí a fazer de conta que não faz parte da paisagem.
A propósito dos incompreensíveis ausentes, a menos que já saibam tudo sobre a matéria ou estejam cem por cento enfadados pela estética pasolineana, poderia talvez concluir-se que sobre o assunto pesa ainda a aversão do medo, ou a indiferença amassada na hipocrisia, estigmas iguaizinhos àqueles contra os quais Pier Paolo esgrimiu a sua trágica e contundente mensagem.
Esta coluna, que fala apenas de teatro (ou seja, da matéria de que é feita a vida toda) não quer deixar de lançar este confidencial alarme, referindo muito de passagem um silêncio equívoco que persiste ou uma fome que, adiada, pode cavar na alma o poço frio duma indiferença problemática por nós mesmos.

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006

“Domingo”, pelo Curso de Teatro e Educação da ESEC

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Publicado no Diário de Coimbra de 17 de Fevereiro de 2006

Resultante dum complexo exercício curricular é-nos apresentado este trabalho de análise teatral que todos fariam bem ir ver, dando-se ao trabalho de o discutir depois.
Antes do próprio espectáculo tive a grata ocasião de falar com um distinto protagonista das causas e das coisas do Teatro, detectando mais uma vez a gritante carência da ventilação crítica da cultura de Coimbra em geral, e do Teatro em particular, debate esse que é o elo fraco duma cadeia onde o trabalho e a dedicação abundam, mas que claudica contudo nessa vertente final de aprofundamento e reflexão.
O espectáculo visto depois demonstra à saciedade que estes estudantes de teatro dominam abundantemente as suas ferramentas de expressão, não havendo dúvidas quanto à profundidade da experiência pedagógica realizada.
O tema não pode ser mais actual e trata da mudança meteórica dos hábitos e cenários do consumo de bens de primeira necessidade, fenómeno que se cruza com muitos outros do domínio sociocultural.
O mínimo que poderá dizer-se é que estes futuros agentes de teatro entranharam já, de forma consistente, uma imensidade de epifenómenos do universo consumista (o Centro Comercial Vida Estável!...) de que eles próprios serão, como todos nós, sujeito e objecto de uma atroz vulgaridade de hábitos que se afunda não no seu próprio mistério ou no seu mágico fascínio: as pessoas que ali vão em chusma, não têm pura e simplesmente alternativas!...
Se as tivessem, ou se lhes fosse dado espaço público e estímulo cultural para as construir, faltar-lhes-ia talvez o espavento das cada vez maiores superfícies, onde o efeito hipnótico das luzes dilui a fleuma taciturna dos inúmeros visitantes, mais espectadores passivos do que habitantes do país pantagruélico das compras sem freio, a crédito ou sem ele.
Ao retrato que nos traçam não falta a sofisticada componente multimediática, as vozes “off “ ao capricho dos telecomandos, os persistentes ópios do povo e até o submundo da criminalidade, com aproveitamento inteligente do sugestivo espaço do Museu, sendo de efeito especialmente eficaz a movimentação trepidante de entradas e saídas sugerindo o bulício sem freio de espaços que se abrem e se fecham por sobre multidões saturadas de expectativa.
A raiz da questão, ai de nós, não se resolve porém nessa visão tangente à fenomenologia proposta. Perante a magnitude de um problema tão intenso seria necessário, pelo menos, beliscar um tudo nada as bases do processo, aludindo à natureza e aos mecanismos do sistema, para que a evidente ironia e imensa graça com que certas figuras são traçadas não passe pela consagração castiça de caricaturizações gratuitas, e para que se não resolva numa gargalhada toda a insatisfeita frustração.
Quando uma forma de arte nos apresenta a visão de qualquer coisa, mas de forma tão literal que se perde por inteiro a notação da subjectividade ou acentuação observativa, arriscamo-nos a não saber o que está em causa nessa realidade: se o retrato ou a figura retratada, se a forma ou o conteúdo, que neste caso pode ser a nossa própria circunstância.
A figura muito certa do encarregado de limpeza, por exemplo, cuja presença é tão serena e cuja voz tão bem timbrada, atravessa todo o espectáculo como figura de certo modo transversal, corporizando uma certa irrealidade complacente, oscilando entre nostalgia poética, brio profissional e um projecto de anti-utopias reclicantes que só ele entende.
Ao fim da sua tarefa vem até nós, aparentemente em paz com o dia de amanhã, e aperta bem sentado os atacadores das suas botinas de fino calfe, valendo mais o gesto, a média luz e a serena tranquilidade com que faz isso, do que quaisquer palavras que diga.
A próxima vez que for a um hiper-macro-centro promocional hei-de estar bem atento aos encarregados de limpeza, para ver se lobrigo algum assim, tão compenetrado e sereno, tão poético e cheio do fulgor do teatro.


Sábado, 4 de Fevereiro de 2006

Peça de José Sanchis Sinisterra, pelo Teatro das Beiras, na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado no Diário de Coimbra no dia 07 de Fevereiro de 2006
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Na enérgica sociedade multicultural que Espanha é, José Sanchis Sinisterra ocupa o lugar distintíssimo de um artista que, ao mesmo tempo que se ocupa com raro talento de temas muito fortes de multifacetada concepção, vê os seus trabalhos abundantemente solicitados por teatros oficiais, pelo teatro comercial e por salas alternativas.
De referir, apenas como apontamento de interesse particular, a sua adaptação do "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago, representado no teatro Fígaro de Madrid, um dos muito abundantes momentos da sua obra, a qual se afirma como das mais comprometidas com o teatro do seu tempo. Criador de teatros e de Teatro, director desde 1958 do Teatro Espanhol Universitário de Valência, foi nomeado recentemente director artístico do prestigiante Teatro Metastasio Stabile della Toscana em Prato, perto de Florença, entre muitas outras distinções mencionáveis.

Conquistar público não é fácil e o verdadeiro humor também é difícil

Numa cidade como Coimbra, frequentemente visitada por companhias de "grande sucesso", que reduzem tudo à acessibilidade num afã de "conquistar público" sem olhar a meios, José Sanchis Sinisterra representa um exemplo de exigência autocrítica que recusa a tendência "espectacular” de certa prática teatral, as convenções e os códigos do êxito "garantido" e o pós-moderno esplendor cénico, tão espectacular como vazio.
"Perdida nos Apalaches" é uma comédia de contornos filosóficos apresentada pelo Teatro das Beiras, com encenação de Gil Salgueiro, que nos poupa a uma abordagem demasiado hermética dos segredos da matéria, da energia, do espaço e do tempo que o texto possibilitaria, optando por uma ilustração sugestiva dos usos que governam a sociedade e por uma revisão das regras convencionais que regem a tradição narrativa.
Aludindo às teorias da relatividade e da física quântica, com uma incursão substancial no universo absurdo configurado na obra de Franz Kafka, o grupo da Covilhã compatibiliza humor e complexidade de níveis de narração com eficácia dramatúrgica e clareza de propósitos estéticos.
A cenografia é muito simples, mas tem o privilégio de trazer consigo um daqueles apetrechos mágicos que o verdadeiro teatro tantas vezes produz, para proveito de quem assiste: um espelho ondulado onde se reflectem adereços vulgares, transfígurados em seres sinuosos e pinturescos, cheio de contornos luminosos e deformações de requintado efeito.
Nos momentos mais altos em que a trama se desenvolve ao nível duma "twilight zone" ou quinta dimensão, que compatibiliza espaços e tempos distintos em aproximação romanesca da maior candura, a luz azul varre lá atrás planos de indeterminação, tornando-se evidente que não são os mais requintados meios que produzem milagres de efeito, mas sim a imaginação pura condimentada com talento.
A figura do "Segundo Vice-secretário", invulgarmente bem caracterizado por Miguel Telmo, tem a virtude de conferir unidade e substância a todo o espectáculo, pelas intervenções bem colocadas no entrecho como elemento de ligação e, principalmente, ao abrir e encerrar da peça.
Define, com imensa graça, a postura formalista e insidiosa do candidato permanente, do carreirista sem remédio e do elo mais persistente e viciante do "sistema", cuja truculência ridícula a sociedade tantas vezes impinge como combustível certificado (inevitável?...) do protagonismo político-institucional.
Infelizmente, o desvio burlesco que a figura evidencia nalguns dos seus mais hilariantes apontamentos não fica nada a dever ao amaneirado de certas figuretas da vida real, com a vantagem evidente que não nos mete a mão nos bolsos nem se candidata a figurar na galeria dos príncipes privilegiados deste nosso mundo pouco cómico, mas frequentemente dum absurdo sem limites.

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006

“Uma história A Penas”, pelo Trigo Limpo Teatro ACERT, no TAGV

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Publicado no Diário de Coimbra de 28 de Janeiro de 2006

Em horário diurno e como espectáculo para as escolas foi apresentado este magnífico trabalho de teatro, que em programa é adequadamente classificado como “espectáculo para todos”.
Depois de o ter visto em contexto próprio (na sala onde os únicos adultos seria eu e as professoras dos jovens ali presentes) fiquei mais uma vez ciente das preciosidades do Teatro, mas preocupado com uma certa displicência, ou desacerto, ou falta de preparação com que são vistas e atendidas as realidades da cultura, da sensibilidade e da educação.
Sendo excelente a peça, muito bem desempenhada pelos três actores em palco que deram vida a uma multidão de seres; sendo a cenografia fundamentada numa máquina poética engenhosíssima que sofria metamorfoses sem conta e segregava prodigiosa variedade de expedientes cénicos, sempre inesperados e magníficos; sendo tudo isto um facto e ficando muito por dizer da substância do enredo… o milagre da entrega não se processou da forma mais serena e desejável.
Um grupo indeterminado de jovens assistentes, parte significativa já pré-universitários, implantaram insidiosamente um anti-teatro de interferências que nem era resposta inteligente ao trabalho dos actores, nem demonstrava entendimento do que se passava em cena, nem revelava gosto nem respeito pela cultura. Pior do que isso, formaram uma barreira de inquietação malcriada entre o espectáculo e todos aqueles que estavam ali para beneficiar dele, no que tinha de tão inteligentemente construído.
Merece louvor a corajosa impassibilidade mantida pelos actores durante o espectáculo e a alocução comedida, esclarecedora e moralizante feita por um dos mesmos no fim do mesmo, para todos os assistentes.
Se este tipo de coisas é frequente, parece ser de bom conselho que o discurso possa ser feito sempre, já agora, antes do espectáculo. E que os professores que tiverem a iniciativa e a generosidade de acompanhar alunos a acontecimentos, muito certamente fora do seu horário de trabalho, gastem um pouco mais do seu talento instruindo antes da hora, para não terem de recriminar depois. Esta peça, seja dito com verdade, não era nada simples de conteúdos e solicitava também uma introdução explicativa, que não sei se teria sido possível.
Seja-me permitido, já não como comentador de actos cénicos, mas como cidadão, sair do drama vivido às avessas naquela sala, para ir dar um passeio breve ao país da utopia.
Suponhamos que entre as escolas e o mundo exterior o diálogo é fluido e metódico, que aquelas recebem os artistas e que visitam regularmente os ateliers e recintos da arte e do teatro. Sonhemos que as instituições próprias, desde os ministérios às autarquias até à própria família, vivem de mãos dadas e alimentam intensamente essa poderosa sinergia de sinais construtivos da inteligência. Imaginemos que os professores têm condições nas escolas para organizar esse trabalho com a maturidade, o tempo e a continuidade que o valor da tarefa exige e merece.
Cenas tristes como aquelas que se observaram jamais aconteceriam, porque estariam uns muito bem prontos para dar e outros muito desejosos de receber.
De pouco valerá a pena erguer dedos acusadores e dizer que são aqueles ali que têm a culpa, porque assim e porque assado. Fazê-lo não passa de vingança abstracta e não conduz a soluções.
Certo é que, amanhã de manhã, milhares de professores de turmas espalhadas por todo o país lá vão encontrar aquela minoria de teimosos activistas irrequietos, dispostos ao anti-teatro, à sabotagem hiper-activa, ou mesmo, quem sabe, à delinquência agressiva.
Porque terá de ser assim? Que conceitos de pedagogia, que razões sociais, que solidariedade dos poderes e das forças organizadas será possível mobilizar para que certas comédias de hoje se não transformem em tragédias do amanhã?

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2006

Romeu e Julieta com encenação de John Retallack, no Teatro Académico de Gil Vicente

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Gravura de Claes Van Visschen (Londres 1616) que mostra o edifício do velho Globe Theater


Publicado no Diário de Coimbra de 21 de Janeiro de 2006
O teatro, para um sem número de gerações, foi encarado com a convicta gravidade que aproximava o espectador do sentimento de ter encontro marcado com destino, ficando as lendas, os mitos, as referências sentimentais e romanescas marcados a fogo na área indelével da sua memória. Dentre tais referências sobressaem Romeu e Julieta pela candura intensa da paixão que os atraiu e pela crueldade do destino que os separou.
Romeu e Julieta de Shakespeare e do Globe Theater ninguém deve saber ao certo como foram, mas as lembranças que ficaram de tantíssimas suas variantes do passado, de Prokofiev a Tchaikovsky, passando por muitas outras, não parecem receita fácil para as indústrias do espectáculo da actualidade.


O espectáculo que se refere em título teve sala cheia, apresentou elementos de valorização artística de muito bom nível, servindo-se de uma arquitectura cenográfica de boa concepção estética e muito funcional para uma grande variedade de efeitos. A marcação das cenas foi sempre muito fluente, servindo a luminotecnia para acentuar cromaticamente o clima psicológico de cada momento do drama, a que se somava a sóbria e inspiradora presença da guitarra (Vasco Abranches). As cenas de animosidade entre os clãs de Capuletos e Montéquios foram condimentadas com agressividade convincente, “animados” pela agilidade felina dos confrontos de espadachins.
A encenação tem assinatura dum nome muito conceituado e premiado, ainda por cima inglês (John Retallack), e é ele próprio que nos diz, no modesto folheto de apresentação do espectáculo que nos oferece o TAGV, desejar compatibilizar sobre o mesmo palco a tragédia e a comédia, culminando esta última vertente numa sequência “haut en couleurs” protagonizada por um dos mais mediáticos actores em cena (Diogo Infante), que não consigo definir com rigor em termos Shakespereanos nem sei se teria sido a melhor forma de aproveitar o talento e a presença em palco do referido actor.
A própria figura do velho Capuleto (João Lagarto), já perto das cenas mais pungentes da tragédia, entre esposa e ama (figura bem delineada por Custódia Gallego), quer no modo de falar quer no talante de actor, foi acentuando a faceta humorística da parte que lhe coube, com a eficácia expressiva que a sua longa experiência em palco permite, pouco ficando do seu trabalho que nos remeta para o perfil grave de um fidalgo de Verona em sérios cuidados de paternidade.


Receio que estas atitudes tenham contaminado um pouco o estado de espírito de um vasto número de espectadores que assim perdeu a concentração que o espectáculo solicita na área do sentimento e prejudicando-o, sobretudo, no plano do discurso poético, tão inigualavelmente rico nas obras do autor isabelino.Penso que esta mesma orientação pode ter retirado aos próprios protagonistas amantes um certo espaço de afirmação do seu drama grave e heróico, ao morrerem um pelo outro. Remetidos para a área mais elevada do cenário, ganham em altitude mas perdem na proximidade, rarefazendo-se a emoção que instilam no coração do espectador e deixando-o sem aquele aperto na garganta, aquela lágrima tonta, aquela credulidade artificial na história da morte provisória de Julieta que convence tão pouco, mas que comoveu radicalmente gerações e gerações, porque era essa a sua vontade, a sua ilusão e, quem sabe, a sua necessidade de sentimento.

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2005

“Profundo” de José Ignacio Cabrujas, pel’A Escola da Noite


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.Publicado no Diário de Coimbra de 19 de Dezembro de 2005

A acção da peça de José Ignacio Cabrujas que nos traz mais esta realização d’A Escola da Noite tem enquadramentos histórico-culturais próprios da sociedade em que ocorre, a venezuelana, num período temporal específico, habitado por mitos bem elucidados na documentação com que a companhia continua – felizmente – a enriquecer adequadamente os seus espectáculos.

A família descrita, inserida em meio suburbano duma sociedade em transformação, reage de forma expressivamente coesa, facto revelador dum comunitarismo próprio das suas raízes rurais, marcadas pela vocação da festa ritual, pelos velhos mitos indígenas e pela colectividade dos espiritismos coloridos de componente afro-americana.

Se digo isto não é para ajudar o espectador (que disso não precisa) a destrinçar os itinerários ou contrastes da “cultura do milagre”, as vicissitudes do pecado judaico-cristão ou a frustração e desmembramento de certo quotidiano bem próximo da nossa realidade.

Os actores deste “Profundo”, cujo talento e dedicação não passam despercebidos a ninguém, mergulham frequentemente as mãos no chão térreo daquele palco, o que estabelece com esse plano simbólico uma relação de proximidade que vai do gesto de escutar a “voz” dos mortos sepultados à atitude de semear, palpar, cheirar e revolver.

Decididamente, os subúrbios de Caracas estão muito mais perto da floresta mágico-ancestral que os arrabaldes branco e negro da cidade eterna (lembrar Pier Paolo Pasolini…) e o sentido de humor insinua-se a cada instante nesta desmontagem da ingenuidade patética ou necessária da carnal família Álamo.

Quanto a esta, é surpreendida na cruzada de desenterrar a chave decisiva das suas “incumbências”: tesouro, relíquia ou sonho providencial que tantíssimos portugueses “escavam” nos totolotos da esperança fugaz, ou nas exaustivas peregrinações em busca de figuras tão místicas e propiciatórias como as do virtuoso padre Olegário.

As personagens desta peça de Cabrujas, aliás, não são tão “feios, porcos e maus” como seria possível numa observação contundente à maneira de Ettore Scola da suburbanidade carente e problemática, embora “o Boi”, nalguns acessos de moderada truculência, faça pensar nesse outro pai zarolho do realizador italiano.

O tesouro não é descoberto, mas tanto faz. O talante místico-imaginário tem o dom de transfigurar tudo na matéria inabalável da própria crença de que é feito, processo de assimilação ao qual nem escapa o cheiro nauseabundo da fossa encontrada no sítio onde devia estar aquele.

Inteligentemente tratado pelo óptimo trabalho de toda a companhia, o espectáculo tem muita coisa a observar, em registo próprio de costumada sobriedade.

O “drama erótico” de Manganão, por exemplo (dado com subtileza tal que toda a gente percebe…) e a cena final, repassada dum simbolismo atroz, mediante a qual a pá das “escavações místicas” é elevada à condição de símbolo processional, transposição paródico-transcendental eivada de “profundidade” que aquele mesmo personagem entende inspiradamente conferir-lhe.

Nada que não faça pensar maduramente uns quantos autores de frases definidoras do conceito de “profundo”, em repto participativo que A Escola da Noite lançou em gesto inovador, e que foram elevadas à dignidade do texto do catálogo com todos os riscos inerentes dos seus “desvios de subjectividade”…

António Jorge (Manganão) e Maria João Robalo (Lucrécia), numa cena de "Profundo"

Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005

Pinter de antes do Nobel, no Centro Norton de Matos

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publicado no Diário de Coimbra de 9 Novembro 2005

Não sou ainda sócio do Centro Norton de Matos, e talvez devesse sê-lo pelo acumulado de impressões positivas colhidas de amigos, visitas, variedade de acontecimentos e recordações que tenho duma já antiga colaboração artística no domínio da cenografia para o balett.
Desta vez fui a uma peça de teatro que representa o arranque de uma nova secção ancorada no tecido ricamente sedimentado das actividades do Centro.
O amigo que me convida, António José Alves, é encenador, desenha as aplicações de luz e, como se fosse pouco, é ainda actor (no papel de Devlin) desta peça de Harold Pinter, significativamente escolhida para ser levada à cena, antes do autor ter sido designado prémio Nobel da literatura. Esta polivalência de atitudes assinala bem a disponibilidade fértil de quem abre caminhos novos. E tampouco a escolha da peça representa a atitude cómoda de quem queira fazer obra a partir do êxito fácil.
O texto de Pinter é duma objectividade sem adornos nem alusões pitorescas e apresenta-se concentrado num diálogo tenso, recheado de incertezas, alusões a um erotismo crispado e visões aterradoras de bébés arrancados aos braços das suas mães, em alucinadas estações de caminhos de ferro.
O cenário é coerentemente singelo, a acção restringe-se ao mínimo, e quanto às conclusões daquilo que é dito em palco é o próprio espectador que terá, entre alusões simbólicas, alegorias complexas e certo clima de pesadelo, de encontrar as chaves que para si resolvam a trama da peça.

A convivência natural e a tradição festiva do teatro

Algo de especialmente sensibilizante rodeia todo o trabalho feito, digno evidentemente de aplauso e atenção. Refiro-me ao clima humano que é património duma agremiação como esta, que apresenta uma peça de teatro ao fim da qual as pessoas podem ficar discreteando com velhos amigos aquilo que foi dito e vivido no palco cénico.
Nestas cidades, de prédios onde impera um certo anonimato trágico e onde as pessoas se esgueiram pelas escadas com medo de encarar vizinhos cujo nome mal se conhece ao fim de anos e anos, é com um sentimento de renovada confiança que se entra numa casa onde o teatro não é apenas uma cerimonial de palavras congeladas, rodeado de silêncios por todos os lados.
A actriz, Celeste Maria Rafael (Rebeca), confidencia-me que viveu sempre ali, a dois passos do Centro, o que me faz lembrar com imensa nostalgia as casas e ruas da minha infância até à primeira idade adulta, pura recordação feita de ausências e de um insatisfeito sentimento do irrecuperável.
Numa sala de teatro que também é ginásio e sala de danças de salão, o aviso de apagar telemóveis não é dado pela ressonância metálica dum altofalante escondido detrás do segredo da sala escura. É uma pessoa que vem ali falar com todos e que, além de outras coisas, também nos diz que a aventura do teatro vai prosseguir no Centro Norton de Matos, assim o queira a generosa vontade dos associados.
Por mim vou estar atento e não ficarei ausente. Pode ser que entre nomes e faces conhecidas possa de igual maneira beber um pouco dessa quase utopia que é viver civilizadamente, em comunidade de interesses e de valores humanos, artísticos e sociais.
E que o hábito das palavras, antes e depois de cada peça, possa tornar-se uma atitude natural, uma vivência autêntica de cultura e da tradição festiva do teatro.

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005

Bonifrates no TAGV, em celebração de maturidades

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publicado no Diário de Coimbra de 31 Outubro 2005

A Cooperativa Bonifrates celebra 25 anos. Um quarto de século de valiosas actuações, um itinerário recheado de momentos fortes.
Levou à cena mais uma vez, agora no TAGV, uma peça “de cuyo nombre no quiero acordarme”, com o seu cortejo de palavras pesadas que nos recorda, com particular sentido de exaltação humanizada e elegância estética, que o mundo é mundo, campo de batalhas perdidas e sonhos pueris, de desejos desmedidos e, tantas vezes, de uma dura e intolerável desesperança.
A. Kowalsky e João Maria André constroem esta peça sobre o tema da mais velha profissão do mundo, libertando-o do oportunismo “voyeurista” com que tantas vezes é tratado, construindo uma obra de conteúdo universal e sensível, liberta de moralismos hipócritas, plena de todas as contradições e potencialidades da vida, desde as mais vulgares às mais absorventes. O texto, apoiado muito embora num honesto estudo da matéria de que trata a peça, parece-me ultrapassar em muito os referenciais sociológicos de que é oriundo, mergulhando progressivamente numa esfera de apreciação da fenomenologia dos afectos, da desmontagem da violência nas suas motivações mais primárias, da injustiça e do precário destino dos homens. Amplamente documentado a respeito do submundo transtornado das “mulheres da vida”, demonstra a secreta vulnerabilidade dessas criaturas singelas e vulgares, cativas e exploradas pela via do seu mais delicado préstimo natural, para efeito de sobrevivência própria e amparo familiar.
Depois de um prólogo ou “divertissement” inicial que a peça, desde o seu mais breve começo, fez recuar para o nosso completo esquecimento é, entre realismo sem complexos e expressionismo de invulgar efeito que se desata a construção dramatúrgica; à qual, apenas a caminho do seu desenlace, se vem juntar algo como um bosquejo de enredo personalizado. O expediente é utilizado de forma sagaz para introduzir o sentido de tragédia e defrontar o espectador com a imensa sombra da morte.
O corpo franzino da pequena prostituta drogada é então recoberto por uma das suas colegas de destino e profissão com um mágico “velo de oiro”, luz purificadora ou porta derradeira aberta para a libertação.
Eurídice Rocha, com um perfil que sai directamente dos cadernos de desenhos e das pinturas de Otto Dix, oferece-nos uma actuação inesquecível traçada nos limites do corpo, como tão frequentemente acontece nos palcos alemães, assumindo frontalmente esse risco, não ignorando certamente que um milímetro a mais ou um milímetro a menos poderiam colocar em risco toda a sua intensa atitude de verdade teatral.
Sozinha em palco executa dilaceradamente a “dança ritual do trabalho”, metáfora engenhosa do mais subtil efeito cénico já antes praticada noutro registo pelo colectivo das raparigas, que vai conduzindo ao desfecho do espectáculo que os seus construtores transpõem com invulgar talento para um outro espaço da mente, outros continentes e outras culturas, saída sem portas para o único horizonte possível da alma ou seja, a sua inalcançável transcendência.
A minha crónica termina aqui, lamento não poder alongar-me mais, mas não termina felizmente com esta peça o percurso riquíssimo dos Bonifrates, ou “bons irmãos” do Teatro.
Parabéns e louvor a todos os seus colaboradores e, para já, votos de outros 25 anos de profícuo labor artístico em benefício de toda a comunidade cultural!...

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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2005

60 minutos com Brecht, no TAGV, em produção invulgar


publicado no Diário de Coimbra de 23 de Setembro de 2005
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O potencial activo da produtora Margarida Mendes Silva e os critérios de encenação de Clóvis Levi podem repousar de consciência tranquila: a evidência das imagens multimediáticas que precedem o entrecho deste Galileu Galilei não permitirão ao espectador mais distraído olvidar o estado geral do mundo entregue, como mais ou menos sempre esteve, à barbaridade atroz da violência e da injustiça.
As hordas organizadíssimas dos exércitos, os cadáveres desmembrados despejados sem dó para as valas comuns, a criança em chagas, tremente de pavor e desamparo, e a maldita eficácia dos angulosos “Stealth airplanes” prontos a despejar “bombas inteligentes” em qualquer parte do mundo, tudo por ali passa, não esquecendo o demoníaco apocalipse duma bomba termonuclear em plena demonstração de “realismo” incontestável. O testemunho de Brecht e as suas mais legítimas preocupações não poderiam estar melhor acautelados!

Peças de teatro há muitas

Que me perdoem contudo os meus mais assíduos leitores, mas não foi uma peça de teatro “qualquer” que me levou ontem ao Gil Vicente.
O que eu lá fui ver foi três rapazes de Coimbra, artistas de mão cheia, daqueles raros a quem o destino parece não regatear o instante fugaz da merecida consagração, um dos quais leva tão a sério a servidão da arte que pratica ao ponto de se ter dado ao luxo de ressuscitar (sem aspas) para retomar a peça no ponto em que a havia deixado, alguns meses atrás. O médico dele lá estava, camuflado entre os assistentes, à cautela…
Elencos assim talvez os tenha apresentado o Globe Theater de Shakespeare, a coruscante Broadway, quem sabe o próprio Berliner Ensemble de Brecht!... Mas desta feita, por vida minha, e com assistentes mais que curiosos e expectantes, literalmente suspensos da fala do Actor, esta foi uma vez rara e excelente.

“A verdade é filha do tempo, não da autoridade”

Dizia alguém que sabe das coisas que Fernando Taborda amanhã vai estar mais seguro e que vai fazer muito melhor (“…o problema dele era saber se aguentava a peça... “).
Eu sou do parecer contrário: melhor que ontem nunca mais faz na vida, por ter representado com bravura no fio da navalha, essse espaço exíguo em que cada passo dado é uma conquista e chegar ao fim uma vitória irrepetível.
As suas mãos frágeis de dedos flutuantemente finos, a sua voz ora aveludadamente insegura ora convictamente afirmativa, e o sorrir de quem canta uma canção de Kurt Weil sabiamente ausente incorporaram tão bem a personagem que, a partir de certa altura, já ninguém dava conta de onde acabava Fernando ou começava Galileu.
De Rui Damasceno e Victor Torres poderá dizer-se que criam uma abundante galeria de figuras espirituosamente credíveis, esboçadas com verve e invenção num registo optimista, coerente com a “visão clara” da ciência redentora que a versão dramatúrgica coloca em palco, a par da comédia de contradições que o “império da autoridade” impõe à sempre fugidia e contingente “ânsia da verdade”.
Seria curioso e interessante desfiar alguns dos mais bem conseguidos momentos de criatividade cénica, mas não desejo roubar ao leitor que ainda não viu a peça a oportunidade de descobrir por si mesmo este nobre momento de teatro, numa peça que finalmente dá início a uma carreira que se configura longa e plena de sucesso.
Longa vida e óptima saúde a actores e agentes de teatro de que nós, silenciosos e devotados espectadores, também honrosamente fazemos parte!

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Sábado, 5 de Março de 2005

“Ao partir palavras” pel’A Escola da Noite, sobre textos de Ruy Duarte de Carvalho

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Publicado pelo Diário de Coimbra em 5 de Março de 2005

O melhor a fazer perante mais este magnífico trabalho de teatro seria tentar percorrer os mesmos caminhos que os seus criadores e dedicar às obras de Ruy Duarte de Carvalho a generosidade de atenção que está em olhar-se a obra de outros como se fosse nossa, reinventando-a para transmitir o que tem de lucidamente universal.
Fujo, por uma vez, da consideração merecida do espectáculo no seu todo, incluindo as alusões que fariam justiça às suas principais facetas de construção cenografico-dramatúrgica: um capricho de comentador sem compromissos, que tenho o raro privilégio de ser, permite-me pegar num detalhe desta preciosa encenação, elegendo-o à condição de instante eleito para guardar na minha memória de espectador.
Refiro-me ao que chamarei o “desencantar do gavião”, ou achado de um “mecanismo poético” com implicações visuais e simbólicas de teor especialmente raro.
Com efeito, o personagem João Carlos empreende a sua viagem através de plainos e matas africanas para ir tratar de um assunto de vacas, preocupação central da sua vida de homem pobre, projecto de velhice e herança única de seus filhos. A partir de certa altura é um gavião que o acompanha na jornada. “Vigiam-se os dois, o velho em baixo e o gavião em cima, para um paisagens e para o outro espinhos”.
Tudo isto é da literatura elegante e fácil de Ruy Duarte de Carvalho, mas é aqui que nos aparece a alegoria encontrada para o pássaro, aparição de duas atrizes jovens, esplendidamente claras e loiras, com uma veste juvenil sem alusões imediatas ao mundo da vulgaridade quotidiana.
Empunham, cada uma de seu lado, um singelo apetrecho feito de hastes finas de madeira que simula de forma mínima a leveza esquemática de uma asa.
Explico melhor: elas estão ao centro, movimentando-se a gosto da marcação cenográfica, como alma-grupo duma entidade alada, e as asas atrás descritas abrem-se para fora, servindo depois, à transparência dum enorme ecrã, para representar o gavião suspenso na altura quente e pesada de África, da forma tão rica como o descreve o autor do texto.
A parceria imaginária dos dois viajantes, tão diversos no destino como no elemento em que se movimentam, acentua-se de modo tão expressivo que, a partir de certo momento, é o gavião que nos conta a história do velho João Carlos.
Falta referir um outro adereço ou coisa fabulosa: duas cordas pendem da escuridão invisivelmente misteriosa do teatro, como suspensas da cúpula dum circo da minha infância. No extremo de cada uma dessas cordas, uma daquelas argolas redondas que seguravam os equilibristas, que as jovens “asas de gavião” cingem, cada uma em seu braço, traço de união entre elas e a transcendência do céu ignoto.
A conjugação destes detalhes e a alegre evolução das artistas até ao proscénio, donde nos falam subidas a um praticável, tudo isso entrou por mim dentro de tal forma que mal consegui aperceber-me do que diziam, tanto foi o entusiasmo de vê-las feitas um pássaro que plaina nas alturas para depois “…abalar em direcção ao sol, o que é dizer, para o alto, para a vertical do mundo que é onde o sol se encontra quando faz meio-dia…”.
A afirmação que a arte frequentemente nos traz das coisas de África tende sempre a apresentar-nos uma visão de um mundo mágico de dimensões e horizontes insondáveis, sendo as criaturas dali originárias portadoras duma sabedoria ingénua, mas tão providencial, que horizonte e sabedoria e dimensões inexplicáveis se fundem num mesmo todo que nem é deste mundo, nem destes tempos, nem de tempo algum que tenha visto vivo homem.
Esta encenação escapa magnificamente a esta tentação e, se digo pouco, com isso me acabo até um próximo espectáculo de vida, que é dizer: de teatro!...

Quinta-feira, 4 de Novembro de 2004

Teatro do brasileiro Plínio Marcos pel’A Escola da Noite

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 4 de Novembro de 2004

A primeira virtude de mais esta realização d’A Escola da Noite, com versão e encenação de Sílvia Brito e as magníficas actuações de dois bravos actores, Carlos Marques (Paco) e Ricardo Correia (Tonho) é a de trazer ao palco a obra de um brasileiro, Plínio Marcos, presença forte e interventiva da sociedade problemática e da época conturbada em que viveu.
A cultura da pressa e da falta de tempo tomaram de assalto o quotidiano, mesmo que insignificantemente improdutivo, e é raro encontrar quem se dê conta da riqueza imensa do inexplorado universo da autêntica cultura brasileira.
Chão vasto como um continente, mescla de povos vários e cadinho de culturas confluentes, o Brasil é esse outro lado do mundo que escassamente nos atrevemos a (re)descobrir, para mal dos pecados da nossa lusitanidade.
A estética da peça, afinada por um saber fazer e por uma sensibilidade requintada que são a marca distintiva dos trabalhos da casa, traz-nos mais uma vez o eterno tema da violência sob uma das suas inumeráveis roupagens.
Sobre a plataforma forrada de branco, como qualquer ring de box, saltam de tantos em tantos minutos dois lutadores acossados pelo rigor de carências duma sociedade impiedosa e madrasta.
Na sucessão de quadros que se organizam como autênticos “assaltos” dum combate muito menos que simbólico, nem faltam, a cada canto, o lugar do alucinado repouso dos contendores, a toalha que limpa o seu suor azedo e a água com que se dessedentam.
Interessará considerar a forma como termina o enredo? Valerá a pena debater a melhor ou pior justeza da solução encontrada para desenlace dos amargos conflitos daquelas duas almas errantes, irmãos gémeos de outros tantos homens a braços com a sua própria angústia, filhos doutras misérias e doutras injustiças?
É evidente que sim e bem o sabe a cultura desta Companhia de Teatro que sempre nos traz, dignificada, a arte do gesto e da palavra dramatúrgica.
Sensibilidades oriundas de um século que foi indelevelmente marcado pelos vícios e virtudes da “hollywoodesca” fábrica dos sonhos, bem sabemos de que maneira é que uma obra “contra” a violência pode fazê-la passar como razoável ou até indispensável.
Relembremos, a título meramente simbólico, um clássico de clássicos, ainda a preto e branco: “O homem que matou Liberty Valance” de John Ford. Para que James Stewart, o democrático e delicado protagonista pudesse fazer reinar a lei e a ordem e tornar-se prestigiado senador, lá teve que puxar o gatilho na sombra John Wayne, carisma vivo da mesma América profunda que apoia tão visceralmente invasões e bombardeamentos.
Longe do artificial tratamento das imagens e dos avassaladores ritmos de narração do cinema e da televisão, o teatro conserva, ainda felizmente e sempre, o metal fino da voz tremente, o claro escuro da autenticidade, as pausas, os ritmos à nossa medida e a face descoberta do actor, eco e reflexo do nosso próprio rosto.
Na peça de ontem houve uma cena que todos viram e que não fazia parte do entrecho, que não foi escrita pelo dramaturgo nem fora sonhada pela delicada encenadora.
Os dois rapazes, actores de mão cheia, cairam ao fim nos braços um do outro empolgados pela emoção do recado entregue de corpo e alma inteiros.
À espontaneidade irreprimível do abraço não terá faltado o brilho diamantino de uma lágrima. Se foi deles ou se foi minha, não sei bem.
Mas coisas destas, francamente, nunca as vi nos filmes de Holywood!...

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Terça-feira, 15 de Junho de 2004

O Cerejal, de Anton Tchekhov pel’A Escola da Noite

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2004

Ir a um espectáculo de teatro continua a ser uma das formas sociais mais inteligentes e interessantes de passar o tempo. Ali o espectador não é objecto de emoções injectadas pela paixão incontrolável ou pela excitação desabrida.
A pessoa que vá ao teatro é sujeito principal duma acção estimulante do espírito e nada há numa peça, por mais excelente, que não tenha de ser arquitectado na mente de quem vê, de forma sensível e perceptiva.
Mesmo que já se tenha visto antes, mesmo que se conheça o autor e o texto esteja bem presente na memória, a representação traz sempre consigo uma novidade, um desafio, uma renovação da nossa capacidade de ver.
Que coisas poderá trazer-nos esta obra, cem anos depois de ter sido estreada no contexto específico do colosso cultural da Rússia de Tchekhov?
Fixemo-nos apenas numa ideia que opressivamente condiciona todo o entrecho e que para mim é o personagem principal, sem ser actor nem figura material visível. A ideia de mudança, de princípio e de fim, de transitoriedade fatal de tudo aquilo que se agita sobre o palco cénico tal como no mundo e na vida.

A vida, palco infinito de miragens sobrepostas

No terceiro acto, enquanto Pétia e Liuba Ranevsky travam um diálogo absorvente e esta se confessa perdida e desorietada como num mar revolto, temerosa perante o desastre eminente, lá atrás no salão, decorrem festejos ao ritmo duma música excitante.
O interessantíssimo e eficaz dispositivo cénico dá ao espectador essa simultaneidade de mundos que entre si se confundem, dizendo uma coisa as palavras e anunciando outra os sentidos, tal como nas contradições universais da vida.
O que é a verdade? pergunta Liuba a Pétia, discorrendo sobre todas as coisas graves do envelhecimento, da perda, do sofrimento e da dureza da vida: o filho morto no rio, a casa mãe à beira do abismo, longínqua e perdida já a doirada tradição da abundância e a certeza num mundo seguro e imutável.
A intervalos regulares invadem todo o espaço a irrequieta música que não se cala, o bulício circense e a vitalidade sensual dos corpos que bailam.
Exactamente como na vida de todos os dias, há cem anos como agora, o amor e a morte dão-se as mãos num encadeado de contradições sem freio, de miragens sobrepostas, de breves feixes de luz colorida que a obscuridade triste da realidade envolve, pesadamente.
Ermolai Alexeevitch Lopakhin é o novo rico que está ali, cheio dos argumentos indestronáveis do poder e do sucesso, para demonstrar que a vida prossegue, implacável, dando razão a quem pode enfrentá-la com imensa energia, rudeza e uma indispensável fortuna rara e casual.
Ania, criança virginal de amor, acaba por fugir com Pétia depois de o ter simbolicamente armado com as suas perdidas polainas, frágil garantia de longa e proveitosa jornada direitos ao coração do futuro.
Para a nobre família a catástrofre inevitável consuma-se entre preparos e arrumações diversas, árvores que se abatem e servos para sempre fiéis, até no inevitável instante da morte.

Mil janelas, mil bandeiras verde rubras

Pateticamente ausentes já, olhar ansioso fixo num ponto indistinto do horizonte, os velhos aristocratas despedem-se ao sair para um Paris simbólico que não existe para eles, porque não existe, pura e simplesmente.
Fazem-me pensar nas varandas e janelas do meu país ilusório e festivo, inundadas de bandeiras nacionais, conclamando as gentes a uma estranha unanimidade de entusiasmos galvanizantes.
Será que os optimistas que assim se exprimem ignoram que o estandarte republicano, em seu contraste dramático de cores elementares, simboliza mais as dores e o sofrimento que a frescura da esperança? Quem há aí, dentre vós, que tenha reparado que o vermelho é muito mais que o verde, e apela à determinação, ao espírito de sacrifício e à aceitação do destino trágico?
Ou será que cem anos depois d’O Cerejal, a música fácil e a tontura das danças continua a iludir a palavra reflectida e o discurso incómodo da verdade?

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Sexta-feira, 4 de Junho de 2004

Daquel Abrente, o Centro Dramático Galego na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 4 de Junho de 2004

O Teatro é um acontecimento para se festejar de pé, ombro a ombro, com alegria e lágrimas que fazem tremer os lábios por se ter soltado nas veias o sangue espesso da verdade. Se isso for em praças de gente madura, tanto melhor, para que não ecoe solitariamente a voz que deve ser de muitos, para toda a gente.

“Daquel Abrente”, memória de uma alvorada

Em visita de qualidade veio da Galiza a proposta cenográfica citada, em intercâmbio organizado pel’A Escola da Noite que também se apresentou em Santiago de Compostela com trabalhos sobre Gil Vicente, para trazer testemunho do corajoso acontecimento, há vinte e cinco anos, da fundação do teatro profissional naquele país.
Se digo país penso na vontade de afirmação cultural e na capacidade de organizar essa e outras modalidades de intervenção, das quais se salientam hoje as peças escritas por dois notáveis autores galegos : “Laudamuco, señor de ningures” , de Roberto Vidal Bolaño e “O velorio” de Francisco Taxes.
Obras escritas nos anos setenta, num momento de transformações importantes na Península Ibérica em geral e na sociedade galega em particular, recorrem a uma estética de clareza e frontalidade emocional onde é possível descortinar raízes da expressão artístico-literária vincadamente autóctones umas, e de perfil universalista, outras.
Inevitável é mencionar a qualidade de amadurecimentos acumulados neste quarto de século por alguns dos actores em cena. A figura imensa de Rouco, por exemplo, feita por Rodrigo Roel, encarna a figura do servo e sustentáculo único da paranóia de um rei que já não é, no plano de descolocação patética de uma farsa que abre caminho à mais certeira ironia e ao mais devastador retrato dos poderes absurdos, das proeminências ridículas e das dignidades putrefeitas.
“O Velório”, que foi na época em que estreou uma obra revolucionária e que já em 1978 arrastou uma multidão de entusiasmo ao FITEI do Porto, ao qual regressa este ano, é o traço expressionista a branco e negro de uma explosão de indignações recalcadas perante o ocaso do poder, simbolizado pela morte da figura opressora e tutelar. A acção desenrola-se no clima de excesso e destemperança das festas e ritualidades parateatrais, apetecendo ainda mencionar o “esperpento”: género teatral que surge com “Luces de Bohemia” de Ramón del Valle-Inclán, em 1924, e no qual se fundem de modo particular o sentido da farsa e da tragédia.
Na continuidade que estes espectáculos evidenciam há que referir também o conjunto musical dos irmãos Morán, protagonistas do roque galego dos anos setenta e que actuam ao vivo ao longo das duas peças com sublinhados e intervenções de efeito surpreendente.

A fala galega, só deles ou também nossa?

Se há razões que a noite húmida e quente deste fim de Maio oculta em seu segredo, não deixa de ser impressionante que tenhamos podido assistir a todo um serão de teatro em fala estrangeira que todos nós fomos percebendo de maneira intuitiva. Assim à maneira de uma coisa antiga que perfeitamente reconhecemos, sem termossido obrigados a ter de estudá-la na escola.

Quarta-feira, 19 de Maio de 2004

Rappaport pela Bonifrates sobre a velhice com graça sem mentir

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 19 de Maio de 2004

Como é que é possível falar da velhice sem desmoralizar as pessoas que tenham mais de trinta anos, colocando na mensagem suficiente ardor de clareza e a dose certeira de verdade?
Como é que é possível falar da velhice sem aborrecer as pessoas com menos de trinta anos, essa magnífica porção das nossas vidas durante a qual a perda da juventude, sem ser por lampejos vagos ou fatalidades casuais, parece ser um país tão longe, tão para lá dum oceano de sonhos magníficos, ainda por atravessar?
Por uma vez na vida, caro leitor, à fé de quem sou, faça o que lhe digo: vá ver a peça que a Bonifrates leva à cena no teatro de bolso da Casa Municipal da Cultura, e não terá que se arrepender. As tarefas de dramaturgia e a encenação são de João Maria André, ficando eu triste por não poder detalhar toda a equipa de trabalho, tão eficaz e acertada que tudo na peça parece fácil.
A realização reflecte simplicidade sem falta de requintes: uma entrada através do cenário, ao fim dum amplo corredor atapetado com cascas de pinheiro a estalar debaixo dos pés que sugerem as coisas antigas e fundamentais da natureza; uma música de fundo composta para o efeito, sinalizando de forma inspirada as circunstâncias que viajam pela peça dentro; um lote de actores secundários perfeitamente credíveis que entram a tempo e fazem bem o que lhes toca sem vacilar e, para finalizar, como se fosse coisa simples, um par de actores principais dispostos a enfrentar denodadamente um texto que atravessou o Atlântico fazendo grandes sucessos em ambas as suas margens e tendo ganho esse raro e difícil galardão que é chegar a ser cinema, interpretado por actores mundialmente conhecidos.

A realidade maior também pode ser inventada

O entrecho desenrola-se num banco de jardim duma grande cidade em que a visita de intrusos maldosos parece ser coisa fatal e inevitável.
Os protagonistas são dois velhos que fazem do glaucoma, das cataratas e dos acidentes ortopédicos histórias contáveis a par de muitas outras coisas vividas, arduamente sofridas, risonhamente sonhadas ou simplesmente... inventadas. Isso, inventadas, porque a invenção é um navio sempre pronto a largar, tenha o piloto um coração forte e sejam largas e generosas as velas da imaginação!...
Ambas as figuras evidenciam a problemática universal das pessoas de idade avançada enquadradas, para mais, em contextos sociais desumanizados, indiferentes aos direitos dos cidadãos mais isolados e desvalidos.
Victor Torres e Fernando Taborda são “Nat” e “Midge”, duas figuras cujas caracterizações dicotómicas tocam extremos tão frequentes no romance e no teatro (um “D. Quixote” e um “Sancho Pança”). Se o primeiro se exalta na exuberância idealista e na bravata destemida e vulnerável o outro rasteja, terra a terra, em obediência ao mais pragmático conformismo.
Conseguem isso, aliás, operando essa coisa simples e tão natural em grandes actores de teatro que é o prodígio da transfiguração. Um é o cegueta assustado e escapista, o outro um impulsivo sonhador que ergue o braço frágil e a mão tremente como se fosse um desfraldado estandarte combativo, inebriado pelas palavras, como quem se olha ao espelho dos mais calorosos ideais.
Como acontece no discurso literário, além da acontecer na própria realidade, são duas figuras que se fundem numa amálgama de contradições produtivas, numa abundante percepção da vida, feita de uma imensidade de gestos com sentido e de raros momentos felizes com lágrimas ou sorrisos, em que a vontade coloca o destino nas mãos dos homens como uma flor gentil, demasiado frágil para que dure, demasiado preciosa para que desistamos dela.
Vá leitor, faça o que lhe digo: vá ao teatro! Vá, que é com isso que pode dar à vida um dos seus sentidos principais. Vá, enquanto é tempo, não venha a velhice um dia por aí apanhá-lo irremediavelmente desprevenido.

Sexta-feira, 14 de Maio de 2004

Ridiculum Vitae, solos para duas atrizes em noite de sonhos e de sombras

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 14 de Maio de 2004

Helena Faria e Alexandra Silva são duas atrizes excelentes, cuja persistência nas artes de palco já granjeou um abundante lote de recursos expressivos de que dá testemunho abundante a peça que tem ido à cena no Inatel, depois dum largo percurso de representações noutros locais.
A peça é constituída por diversos quadros que fazem desfilar perante nós um variado grupo de casos femininos, criaturas situadas naquela margem da vida em que os desencontros e a caracterização problemática se cruzam com essa debilidade a que chamamos ridículo, e que tão mais frequentemente abunda do que à primeira vista pode querer parecer-nos.
A densidade de conteúdos e o primoroso desempenho ficam na memória de quem tenha visto a peça, como segredo e privilégio bem guardados.
Com efeito, numa noite de festas estudantis como há tantas, em que milhares de jovens saturam a cidade de ânsias naturais e alguma sofreguidão incerta de futuro, entra o espectador na sala enorme de espaços vazios e assusta-se, transido pela solidão que rodeia o culto excelente das palavras sentidas.
Leio o modesto folheto editado pela Associação Cultural Camaleão e reparo que a ficha técnica do cuidadoso espectáculo pede meças ao número de espectadores presentes.
E não é por ser esta a peça, nem por serem estas as actrizes (que já sublinhei serem excelentes), nem por ser esta a sala (que até está situada no caminho de toda a gente que atravessa Coimbra numa noite de sombras e sonhos!...)

A falta de meios, uma história mal contada

Cada sociedade elege os ídolos que quer e que entende, e as suas maiorias estão atentas a tudo aquilo que comporte uma compensação imediata, uma facilidade, um estímulo gratuito, mas nem sempre inóquo, partilhado pelos ecrãs da notoriedade.
Estar na crista duma onda iluminada, tonitroante de fama e de sucessos, eis o que cativa e reune multidões. E os pastores de entusiasmos sem sentido não regateiam os meios, os milhões estão ali, palpitantes, que não me deixam mentir.
Daí que me canse, e ofenda até, ouvir a cantilena roufenha da falta de meios para tudo o que seja um esforço semeador e inteligente.
O futebol é a mais milionária das encenações, a que agita mais dramas vazios e anima mais conflitos, a que está mais à mão de toda a gente para alívio de tensões diárias, de entusiasmos que sufocam sob a pressão de carências sem nome.
No Inatel, com as mesmas velhas roupagens que lhe conheço de há um ror de anos, um par de fervorosas beatas em delírio de idolatria folclórica, uma atriz porno remoendo no seu íntimo medos e desejos desordenados, uma feirante de língua de prata em fuga com filhos nos braços e várias outras figuras de vivo recorte cénico, desfilam perante nós com toda a eloquência de trajectos difíceis, verdadeiros, pungentes ou complexamente ridículos!
Na rua, a caminho da festa maior, vários grupos de estudantes caminham duvidosamente alegres (ou quase tristes...) alguns demasiado ébrios para darem bom nome ao vinho que beberam.
O teatro fica à espera deles. Um dia, quem sabe, talvez com ele se cruzem, em sua ilusão e ânsia de futuro

Quarta-feira, 19 de Março de 2003

Estreia de Fuenteovejuna pelo CENDREV, no TAGV, no Dia Mundial do Teatro

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Publicado Pelo Diário de Coimbra em 19 de Março de 2003

A estreia nacional de uma obra tão fecunda como Fuenteovejuna de um dramaturgo tão enorme como foi Lope de Vega honraria uma cidade capital de cultura que fosse capaz de encher uma sala de teatro como o TAGV, no Dia Mundial do Teatro.
Porque assim não foi, uso o modo condicional, na fé de que, mais por ignorância simples ou por simples cansaço de tantas inaugurações e cerimónias, haja muita gente que ali não veio para dar fé da palavra clara de Lope, “ poeta máximo del cielo y de la tierra”, génio imenso, figura vibrante e quase indescritível, protagonista sem margens do bem chamado Século de Ouro de Espanha.
O primeiro utensílio notável usado pelo encenador Pedro Alvarez-Ossório foi a talentosa versão textual de Natália Correia que, escrito em 1973, “exalta e justifica a rebelião de um povo” pelas razões de opressão, prepotência e abuso que em qualquer parte ou em qualquer momento possam, infelizmente, verificar-se.
À elegância poética que o vigor de Natália soube associar qualidade dramatúrgica, acrescentou a concepção do espectáculo uma estética de claridade e de explicitude que é raro ver-se.
Séria e replena de sentidos históricos e literários, a peça de Lope é apresentada em registo de festiva exaltação do gesto e da palavra, sendo criteriosa a utilização que é feita do potencial de razões contraditórias que o entrecho disponibiliza.
Se digo criteriosa não quero dizer enfraquecida, pelos motivos que levam Laurência a invectivar, olhos nos olhos dos espectadores, a cobardia cívica, o escapismo e a moleza indiferente dos que se deixam afundar no abandono da sua própria honra.
Se digo criteriosa, repito, não é porque a configuração do inimigo não esteja bem explícita, no Comendador e nos partidários da sua laia, sem rodeios ou complexos de dúbia complacência.
Lope de Vega deu um sentido de utilidade política à sua obra, como um dos mais distintos criadores do barroco espanhol face ao fim da Idade Média e à ascensão do poder central do estado no dealbar da época moderna. Nesta encenação de Fuenteovejuna, porém, o ódio da colectividade pelos seus opressores é temperado por uma facilidade evidente na mudança de registo que da revolta vingativa por imperiosa necessidade se transforma em alegria ingénua. Para não falar da forma explicitamente irónica com que é tratada a figura dos monarcas, a rainha prepotente e sem escrúpulos e o rei amorfo e sem carácter.
A abrir o espectáculo veio ao proscénio uma atriz que leu o discurso de Tankred Dorst para o dia Mundial do Teatro. Entre muitas coisas interessantes ali foi referenciado o seu carácter de “arte impura”, por lançar mão abertamente de tudo o que se atravessa à frente do homem e à frente da vida. Parece-me aliás que posso utilizar essa ideia para elogiar esta peça que o Centro Dramático de Évora (CENDREV) estreou no TAGV, para honrar Coimbra, com a galhardia e talento duma pequena multidão de artistas de teatro.
Se não eram tantos assim e não chegavam a ser multidão, tanto lidaram e viveram em cena que, pelo menos, foi essa a ideia com que fiquei.

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