O aniversário da Cooperativa de Teatro Bonifrates não teve lugar ao fundo daquele húmido corredor de garagens onde humildemente vamos ver os belíssimos espectáculos que desenvolve e apresenta. Foi acolhida, sim, no Cine-Teatro de Condeixa, numa magnífica infra-estrutura cultural onde todos desejariam se centrasse uma mais continuada actividade da sua inerente vocação de palco de artes, actualizadas algumas depreciações originadas pela própria descontinuidade no seu uso.
A peça “Estilhaços” (aquilo que resulta de qualquer coisa que ameaça por ter explodido sem apelo) já foi vista antes e apreciada na rigorosa metodologia (pode dizer-se científica) com que foi elaborada, no contexto que ela própria descreve: os horizontes fechados da violência doméstica, os verdadeiros protagonistas e gente ligada às instituições especializadas no seu tratamento sociológico e humanitário.
O texto da peça adopta uma versão literária sem diálogo interactivo entre os personagens, apresentando-os, ainda por cima, predominantemente confinados ao casulo de uma solidão muito menos que simbólica: uma espécie de gaiola ou célula cujo significado metafórico cruza de modo eficaz o sentido de um guichet de repartição, de toca de um esconderijo ou de célula de uma prisão.
É uma terrível “invenção cénica” que ampara um dinamismo de mutações permanentes na geometria do espectáculo e de que raramente se liberta a maior parte dos intervenientes.
Alguns deles “parecem” mais soltos, numa pose de intrusos aparentemente livres da lógica imediata do espectáculo. Puro engano, essa diferenciação resulta simplesmente de um artifício perfeitamente conseguido para diferir no tempo ou no espaço a “continuidade” lógica de planos narrativos.
No encadeado de monólogos intimamente trágicos a que se entregam todas e cada uma das “almas aprisionadas” existe, contudo, um intervalo de tolerante espírito de sacrifício, uma necessidade de justificar o injustificável e a ingénua alusão aos instantes fugazes de paz ou felicidade. O que não nos liberta a todos nós, actores e espectadores, é o estampido final que nos remete subitamente para o plano irrecusável da responsabilidade cívica e da noção inequívoca das realidades.
“Estilhaços” não é seguramente um espectáculo vocacionado para substituir um serão de sofá e telenovela. Ele é, mais propriamente dito, uma espécie de anti-telenovela, pelo rigor inflexível com que nos obriga a ver a sociedade despida dos subterfúgios duma aparente facilidade em espreitar pelo buraco da fechadura do sofrimento alheio, longe de todos os cenários da sociedade consumista do sucesso e dos finais felizes.
O único final feliz que pode descortinar-se em “Estilhaços” é olhar de frente a verdade completa, sem bónus de concorrente vencido ou prémio de consolação de participante ingénuo.
A continuidade da apresentação da peça está felizmente garantida por um protocolo estabelecido com a CIG (Comissão para a Igualdade de Género). Parabéns a ambas as instituições.
Direcção, encenação e dramaturgia João Maria André Cenografia, figurinos e cartaz Atelier do Corvo Movimento e expressão corporal Leonor Barata Banda sonora Luís Pedro Madeira Vídeo e desenho de luz Nuno Patinho Fotografias de cena Paulo Abrantes Operador de luz Nuno Patinho Operador de som Hugo Silva Assistente de cena Andreia Pena Caracterização Andreia Pena Teresa Paula Lopes Penteados Carlos Gago/Ilídio Design Fotografias do trabalho de criação Mário Jaleco Design e composição do programa Paulo Pratas | Elenco Alexandra Mascarenhas Alexandra Silva Alexandre Ventura Cristina Janicas Gonçalo Noronha José Manuel Carvalho Maria José Almeida Maria Manuel Almeida Paula Santos Vítor Carvalho Produção Cooperativa Bonifrates Espectáculo construído com a colaboração de: Grupo Violência, Informação, Investigação, Intervenção Equipa do Serviço de Violência Familiar – Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Coimbra |














































