Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

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domingo, 30 de Março de 2008

“Duas irmãs e um rei”, versão muito aligeirada de um tempo convulsivo e violento

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foi publicado no Diário de Coimbra em Março de 2008

Já perdi a conta às versões oferecidas do reinado de Henrique VIII e da sua dramática sequência matrimonial. Filmes, livros, documentários, artigos publicados aqui e ali referem as duas esposas que foram repudiadas, as outras duas decapitadas, a que morreu por doença e outra que acabou por sobreviver.

Nalguns casos uma infinidades de factos históricos complicadíssimos apaga-se perante os ingredientes passionalmente tempestuosos desses seis casamentos reais.

Isto para não falar do inumerável cortejo de amantes, parte dos privilégios banais dos todo-poderosos, cuja conduta estava (e continua a estar…) “naturalmente” isenta das normas aplicáveis às pessoas “vulgares”.

O filme actualmente em cartaz que retoma esse tema ficará, julgo eu, como um superlativo na tendência de isolar a narrativa de toda e qualquer “intromissão” de historicidade.

O espectáculo é muito bonitinho e bem configurado, as roupagens são espampanantes e os dentes das actrizes luzidiamente brancos como nunca os houve no sec. XVI.

A história é reduzida às peripécias de uma família dirigida por cavalheiros decididamente oportunistas, no intento de usarem as graças de uma filha julgada suficientemente capitosa para seduzir um partido rico, rei de Inglaterra nem mais nem menos, embora sendo este legitimamente casado com Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos.

A coisa complica-se devido a certas ocorrências e acaba por ser uma irmã casada, virtuosa e cheia de bom coração, que acaba por ir parar à cama do rei, mau grado o esposo desconsolado de que nunca mais se ouviu falar.

A primeira irmã candidata ao real concubinato não desiste e evidencia uma tenacidade fora do comum e um não menos elaborado sentido estratégico. O rei, de cabeça perdida, não pensa noutra coisa senão em conquistar os seus favores íntimos.

Isto sem a mais leve alusão aos debates teológico-diplomáticos, à destruição de monumentos, às sublevações esmagadas, às torturas e a tantas outras violências que atribuem ao reinado de Henrique VIII mais de setenta mil condenações à morte, entre os quais a de Sir Thomas More, “A Man for All Seasons”!...

A realização é anglo-americana e, no dizer de um crítico inglês, parece destinada a adolescentes americanos que não sabem sequer em que ponto do mapa fica a Inglaterra.

A escolha das protagonistas não foi nada bem aceite na Grã-Bretanha porque nem são, nem parecem inglesas e ainda por cima falam com sotaque estrangeiro.

As melhores actuações referidas e que salvam a nota geralmente medíocre dos protagonistas, são as do pai e da mãe das irmãs Bolena.

O papel reservado ao actor que desempenha a figura do rei é completamente insignificante e o elegante actor escolhido não tem nada do volumoso corpanzil de Henrique VIII.

Ao ver este filme vêm à memória uma enorme quantidade de realizações britânicas de excelentes filmes históricos que fazem saudades e, para um filme cujas atenções estão centradas em peripécias de alcova, à parte meia dúzia de alusões “soft core”, está apesar disso muito longe de ser um filme erótico.

“O Amor nos Tempos de Cólera”, convocatória sugestiva para uma leitura inadiável

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publicado no Diário de Coimbra de 03 de Abril de 2008

Num país cujos nativos se matam impulsivamente pelas estradas na mais irracional indisciplina rodoviária e em que o prato do dia é o de uma desconjuntada professora medindo-se às bulhas com uma raparigota em ambiente vagamente idêntico a um combate de box, tenho uma imensa vergonha de vir falar aqui na falta de respeito pelo silêncio que se observa em certas salas de cinema.

Pequenas coisas assim solicitam o desconforto da intervenção cívica de qualquer nós porque a construção da disciplina não dispensa a atitude responsável dos cidadãos nem pode simplesmente instaurar-se por decreto.

Peço desculpa por ter roubado este espaço ao comentário deste filme de Mike Newell em que é tratado um dos sempre magníficos livros de Gabriel García Márquez, que não fica prejudicado na sua merecida notoriedade de escritor e nas virtudes que tem de bravíssimo cidadão do mundo.

Uma releitura rápida do livro destinada à elucidação deste comentário esclareceu um facto que não é frequente: a realização do filme segue à risca uma enorme quantidade de dados concretos que o livro nos apresenta.

Podemos não gostar daquele Florentino, podemos ficar desiludidos com aquela Fermina, cujo pai afinal não é gordo como no livro e algumas das inúmeras conquistas do protagonista têm mais perfil de modelos do que a espessura realista de verdadeiras mulheres do caribe. Não chegando este filme ao nível de excelência das melhores adaptações de obras literárias para o cinema, longe de Franco Zefirelli e longíssimo de Visconti ou Pasolini, oferece não obstante na sua opulência cenográfica e na sensualidade pretensamente equatorial, magníficos pretextos quer para a leitura do livro quer para a visitação do filme, ao qual não faltam recursos afins da literatura tais como o amparo expressivo do narrador.

Excepção feita a algumas perspectivas paisagísticas de grande angular, é todo feito em cenários especialmente fabricados para o efeito, atingindo com isso uma opulência quase barroca, cuja autenticidade relativa ao tempo e aos lugares não é possível certificar de modo algum.

Muitos dos que já leram a obra acusarão fatalmente o afastamento que não está entre livro e filme, mas entre linguagens com vocabulários e virtudes de natureza diferente, motivo que não deve perturbar o nosso amor pelas coisas, mas complementá-lo da forma mais adequada.

Ler um livro de Gabo é uma experiência insubstituível e o tempo da leitura é muito mais antigo que o tempo do cinema, tecnologia ficcional que constitui um diferentíssimo processo de construção de imaginários. Além disso o cinema que nos chega de Hollywood evoluiu para ritmos narrativos forçadamente impressionantes e é apoiado por bandas sonoras duma violência desconfortável que chegam a reduzir a percepção consciente das ideias.

A edição portuguesa que possuo de “O Amor nos Tempos de Cólera”, além duma escusada quantidade de gralhas está, porém, enriquecida com um belíssimo comentário crítico de João de Melo, a não perder.

Já agora, um pequeno desafio: acompanhar a leitura da obra pela compaginação com o seu original em castelhano, deliciosa experiência que incondicionalmente se recomenda.




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domingo, 2 de Março de 2008

“Haverá Sangue”, ou a solidão implacável do poder

publicado no Diário de Coimbra de 2 de Março de 2008


A leitura dos roteiros de filmes em prospectos induz quase sempre em erro, apontando uma história que não é aquela que de facto vamos ver. A descoberta do que procuramos não é, neste caso, um caminho mais curto entre dois pontos e as versões fáceis nem são esclarecidas, nem compensadoras.

Há também a mazela das críticas de serviço que, na dúvida, repetem umas coisas já marteladas noutros sítios, dizendo um bocado mal para evitar correr riscos.

É por isso aconselhável procurar informação consistente a respeito das obras que frequentamos, nesta como noutras modalidades artísticas.

Num site enciclopédico de cinema é feita uma eloquente narrativa curricular de Paul Thomas Anderson, realizador de “Haverá Sangue”, designando-o como um verdadeiro cineasta, sendo os expoentes comparativos do melhor que inclui a história da 7ª arte.

Os cinéfilos antigos, que já viam cinema muito antes dele ter nascido (1970) podem, pois, continuar a ir ao cinema com a esperança renovada de encontrar, já não digo prata ou petróleo, como Daniel Plainview, mas apreensões do mundo e dos homens que dignificam a arte que pratica.

Deve ter passado em branco a muita gente o facto de o empedernido e tenaz Daniel não passar de um explorador autónomo de oiro negro, a largos anos de distância de uma outra e muito mais implacável versão dos acontecimentos, ou seja, das enormes “multinational oil corporations”.

Todos recordarão, até, o enternecedor momento inicial em que Daniel toma a seu cargo a protecção da criança órfã que virá a adoptar como filho. É a encarniçada acumulação de fortuna e de poder que o arrasta para o apodrecimento moral completo, para a misantropia e para a violência.

Já depois de ter visto o filme, foram atribuídos em Hollywood os célebres prémios cinematográficos, um dos quais tocou à interpretação de Daniel Day-Lewis, mais outro actor europeu a ser galardoado numa edição dos “óscares” em que apenas foram premiados actores não americanos.

“Haverá Sangue”, despropositadamente considerado nalgumas notícias como derrotado, é um filme de enorme qualidade e uma estatueta para o actor principal não deixa de tocar também ao realizador, dada a superior qualidade da direcção de actores. Em detrimento do filme, o ter feito tábua rasa de grande parte do conteúdo político e sindicalista da obra de Upton Sinclair que lhe dá origem (“Oil”, de 1927), apenas aflorado no caso do trabalhador que morre por acidente de trabalho e na menção de outras óbvias malfeitorias de Daniel Plainview. A seu favor a contundente caricaturização do fundamentalismo religioso, que não deixa de ser um acto difícil na América dos nossos dias, conforme bem acentua a crítica internacional.

No “shopping” onde fui ver este filme a imensa maioria das películas exibidas é de origem norte americana. A atribuição dos “Óscares” da sua academia cada vez mais se torna, pela força de tantos acontecimentos, um episódio “cultural” abrangente por excelência, com enviados especiais a Hollywood e tudo.

Os portugueses que recitavam de cor “Lá vem a nau catrineta” e sabiam os reis de Portugal de enfiada, cada vez mais raros, vão ter de se mentalizar de que as mitologias de uso corrente, agora, são outras.

Menos mal se dos USA nos forem chegando filmes de qualidade como este. O que não é sempre o caso, infelizmente.




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