Costa Brites divulga neste "blog", entre outros textos de índole cultural, as crónicas que vai publicando, em secção homónima, no Diário de Coimbra.

Acerca de mim

A minha fotografia
Costa Brites
Coimbra/Lousã, Portugal
Ver o meu perfil completo

sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

“Orgia” de Pier Paolo Pasolini, pelos Artistas Unidos, no TAGV

.


Publicado no Diário de Coimbra de 23 de Fevereiro de 2006

Ir ver uma peça como “Orgia” de Pier Paolo Pasolini sem fazer um certo trabalho de contextualização ou sem dispor de referências sobre o critério estético e cultural que correspondeu à sua origem, pode largar o espectador no labirinto de uma perplexidade indesejável.
Menos mal que desta vez ainda tivemos a oportunidade de adquirir, a um preço módico, por adequada iniciativa dos Artistas Unidos e dos Livros Cotovia, uma tradução de dois originais de Pier Paolo, entre os quais o desta peça.
Quem tenha uma memória alongada da obra do autor, cujo “Evangelho segundo S. Mateus” de 1964 produziu no Portugal desses tempos uma impressão avassaladora, e se disponha a compulsar alguns textos de sua própria autoria sobre teatro, o suicídio, a “diferença” e muitas outras coisas, ficará mais à vontade perante esta anunciada “crónica das pobres emoções sadomasoquistas de dois cônjuges pequeno-burgueses”.
Como fazê-lo? Indo à Internet, é claro, bastando consultar a sempre enorme quantidade de “sítios”, entre os quais um que me embarcou directo
num depoimento do próprio artista sobre “Orgia” e duma breve mas explícita entrevista dada na altura em que a peça se estreou em Torino, Setembro de 1968.
O endereço desse documento é compridíssimo e a sua publicação sob forma escrita seria improdutiva. Para os interessados, como é hábito, publico esta crónica no blogue acima indicado, onde ficará uma ligação directa para esse precioso documento, com o qual deixo os meus leitores, o que me poupa a exercícios de inútil erudição.
Quanto à peça foi uma magnífica oportunidade para conhecer o soberbo texto de PPP, à qual se fez ausente a plateia de interessados espectadores do TAGV, frequentemente numerosa quando se trata de peças “estreladas” por nomes apetecíveis do universo mediático.
Muita coisa poderia dizer-se sobre ela e sobre os inesgotáveis temas de que trata.
Ainda na qualidade de espectador fiel dos filmes de Pasolini, senti-me um pouco “arrefecido” pela carência de actores cuja figura, cuja voz e cujo estar fosse compatível com a habitual “paisagem humana” das suas obras de cineasta. Ninguém aqui deseja comparar evidentemente o elenco de uma peça feita na Lisboa dos nossos dias, e o de um filme original do autor, frequentemente confiado a actores arrancados por ele mesmo à vida vivida naquela margem mais intensa e radical em que ele próprio se movia.

“E agora divirtam-se”, disse o enforcado

É com esta frase, de uma ironia desapiedada, lançada pelo protagonista de Orgia aos espectadores – “seus inimigos” – que termina o prólogo desta peça, escrita por um autor que considerava o monólogo como o mais teatral dos acontecimentos, critério em que assentava a sua noção de “teatro de palavras”.
E já agora, venha ou não a propósito, sobre sexo:
Numa sociedade como a nossa, onde tão assiduamente se papagueia a legitimidade do “diálogo abertíssimo” e da “informação a 360 graus” sobre as questões da sexualidade, nem por isso a peça declamada no TAGV pôde ter concitado a curiosidade sobre este tema raro numa sociedade secularmente “letrada” e “culta” na qual, ou eu me engano muito, ou muita gente anda por aí a fazer de conta que não faz parte da paisagem.
A propósito dos incompreensíveis ausentes, a menos que já saibam tudo sobre a matéria ou estejam cem por cento enfadados pela estética pasolineana, poderia talvez concluir-se que sobre o assunto pesa ainda a aversão do medo, ou a indiferença amassada na hipocrisia, estigmas iguaizinhos àqueles contra os quais Pier Paolo esgrimiu a sua trágica e contundente mensagem.
Esta coluna, que fala apenas de teatro (ou seja, da matéria de que é feita a vida toda) não quer deixar de lançar este confidencial alarme, referindo muito de passagem um silêncio equívoco que persiste ou uma fome que, adiada, pode cavar na alma o poço frio duma indiferença problemática por nós mesmos.

quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006

“Domingo”, pelo Curso de Teatro e Educação da ESEC

.

Publicado no Diário de Coimbra de 17 de Fevereiro de 2006

Resultante dum complexo exercício curricular é-nos apresentado este trabalho de análise teatral que todos fariam bem ir ver, dando-se ao trabalho de o discutir depois.
Antes do próprio espectáculo tive a grata ocasião de falar com um distinto protagonista das causas e das coisas do Teatro, detectando mais uma vez a gritante carência da ventilação crítica da cultura de Coimbra em geral, e do Teatro em particular, debate esse que é o elo fraco duma cadeia onde o trabalho e a dedicação abundam, mas que claudica contudo nessa vertente final de aprofundamento e reflexão.
O espectáculo visto depois demonstra à saciedade que estes estudantes de teatro dominam abundantemente as suas ferramentas de expressão, não havendo dúvidas quanto à profundidade da experiência pedagógica realizada.
O tema não pode ser mais actual e trata da mudança meteórica dos hábitos e cenários do consumo de bens de primeira necessidade, fenómeno que se cruza com muitos outros do domínio sociocultural.
O mínimo que poderá dizer-se é que estes futuros agentes de teatro entranharam já, de forma consistente, uma imensidade de epifenómenos do universo consumista (o Centro Comercial Vida Estável!...) de que eles próprios serão, como todos nós, sujeito e objecto de uma atroz vulgaridade de hábitos que se afunda não no seu próprio mistério ou no seu mágico fascínio: as pessoas que ali vão em chusma, não têm pura e simplesmente alternativas!...
Se as tivessem, ou se lhes fosse dado espaço público e estímulo cultural para as construir, faltar-lhes-ia talvez o espavento das cada vez maiores superfícies, onde o efeito hipnótico das luzes dilui a fleuma taciturna dos inúmeros visitantes, mais espectadores passivos do que habitantes do país pantagruélico das compras sem freio, a crédito ou sem ele.
Ao retrato que nos traçam não falta a sofisticada componente multimediática, as vozes “off “ ao capricho dos telecomandos, os persistentes ópios do povo e até o submundo da criminalidade, com aproveitamento inteligente do sugestivo espaço do Museu, sendo de efeito especialmente eficaz a movimentação trepidante de entradas e saídas sugerindo o bulício sem freio de espaços que se abrem e se fecham por sobre multidões saturadas de expectativa.
A raiz da questão, ai de nós, não se resolve porém nessa visão tangente à fenomenologia proposta. Perante a magnitude de um problema tão intenso seria necessário, pelo menos, beliscar um tudo nada as bases do processo, aludindo à natureza e aos mecanismos do sistema, para que a evidente ironia e imensa graça com que certas figuras são traçadas não passe pela consagração castiça de caricaturizações gratuitas, e para que se não resolva numa gargalhada toda a insatisfeita frustração.
Quando uma forma de arte nos apresenta a visão de qualquer coisa, mas de forma tão literal que se perde por inteiro a notação da subjectividade ou acentuação observativa, arriscamo-nos a não saber o que está em causa nessa realidade: se o retrato ou a figura retratada, se a forma ou o conteúdo, que neste caso pode ser a nossa própria circunstância.
A figura muito certa do encarregado de limpeza, por exemplo, cuja presença é tão serena e cuja voz tão bem timbrada, atravessa todo o espectáculo como figura de certo modo transversal, corporizando uma certa irrealidade complacente, oscilando entre nostalgia poética, brio profissional e um projecto de anti-utopias reclicantes que só ele entende.
Ao fim da sua tarefa vem até nós, aparentemente em paz com o dia de amanhã, e aperta bem sentado os atacadores das suas botinas de fino calfe, valendo mais o gesto, a média luz e a serena tranquilidade com que faz isso, do que quaisquer palavras que diga.
A próxima vez que for a um hiper-macro-centro promocional hei-de estar bem atento aos encarregados de limpeza, para ver se lobrigo algum assim, tão compenetrado e sereno, tão poético e cheio do fulgor do teatro.


sábado, 4 de Fevereiro de 2006

Peça de José Sanchis Sinisterra, pelo Teatro das Beiras, na Oficina Municipal do Teatro

.

Publicado no Diário de Coimbra no dia 07 de Fevereiro de 2006
.
Na enérgica sociedade multicultural que Espanha é, José Sanchis Sinisterra ocupa o lugar distintíssimo de um artista que, ao mesmo tempo que se ocupa com raro talento de temas muito fortes de multifacetada concepção, vê os seus trabalhos abundantemente solicitados por teatros oficiais, pelo teatro comercial e por salas alternativas.
De referir, apenas como apontamento de interesse particular, a sua adaptação do "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago, representado no teatro Fígaro de Madrid, um dos muito abundantes momentos da sua obra, a qual se afirma como das mais comprometidas com o teatro do seu tempo. Criador de teatros e de Teatro, director desde 1958 do Teatro Espanhol Universitário de Valência, foi nomeado recentemente director artístico do prestigiante Teatro Metastasio Stabile della Toscana em Prato, perto de Florença, entre muitas outras distinções mencionáveis.

Conquistar público não é fácil e o verdadeiro humor também é difícil

Numa cidade como Coimbra, frequentemente visitada por companhias de "grande sucesso", que reduzem tudo à acessibilidade num afã de "conquistar público" sem olhar a meios, José Sanchis Sinisterra representa um exemplo de exigência autocrítica que recusa a tendência "espectacular” de certa prática teatral, as convenções e os códigos do êxito "garantido" e o pós-moderno esplendor cénico, tão espectacular como vazio.
"Perdida nos Apalaches" é uma comédia de contornos filosóficos apresentada pelo Teatro das Beiras, com encenação de Gil Salgueiro, que nos poupa a uma abordagem demasiado hermética dos segredos da matéria, da energia, do espaço e do tempo que o texto possibilitaria, optando por uma ilustração sugestiva dos usos que governam a sociedade e por uma revisão das regras convencionais que regem a tradição narrativa.
Aludindo às teorias da relatividade e da física quântica, com uma incursão substancial no universo absurdo configurado na obra de Franz Kafka, o grupo da Covilhã compatibiliza humor e complexidade de níveis de narração com eficácia dramatúrgica e clareza de propósitos estéticos.
A cenografia é muito simples, mas tem o privilégio de trazer consigo um daqueles apetrechos mágicos que o verdadeiro teatro tantas vezes produz, para proveito de quem assiste: um espelho ondulado onde se reflectem adereços vulgares, transfígurados em seres sinuosos e pinturescos, cheio de contornos luminosos e deformações de requintado efeito.
Nos momentos mais altos em que a trama se desenvolve ao nível duma "twilight zone" ou quinta dimensão, que compatibiliza espaços e tempos distintos em aproximação romanesca da maior candura, a luz azul varre lá atrás planos de indeterminação, tornando-se evidente que não são os mais requintados meios que produzem milagres de efeito, mas sim a imaginação pura condimentada com talento.
A figura do "Segundo Vice-secretário", invulgarmente bem caracterizado por Miguel Telmo, tem a virtude de conferir unidade e substância a todo o espectáculo, pelas intervenções bem colocadas no entrecho como elemento de ligação e, principalmente, ao abrir e encerrar da peça.
Define, com imensa graça, a postura formalista e insidiosa do candidato permanente, do carreirista sem remédio e do elo mais persistente e viciante do "sistema", cuja truculência ridícula a sociedade tantas vezes impinge como combustível certificado (inevitável?...) do protagonismo político-institucional.
Infelizmente, o desvio burlesco que a figura evidencia nalguns dos seus mais hilariantes apontamentos não fica nada a dever ao amaneirado de certas figuretas da vida real, com a vantagem evidente que não nos mete a mão nos bolsos nem se candidata a figurar na galeria dos príncipes privilegiados deste nosso mundo pouco cómico, mas frequentemente dum absurdo sem limites.

arquivo